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O blog atém-se às questões humanas. Dispensa extremismos ou patrulhas. Que brilhe a sua luz. Bem-vindo e bem-vinda!

sábado, 14 de fevereiro de 2009


“Um pequeno tombo já os punha a nocaute! Nós, crianças, não percebíamos.”

A máscara do Zorro

A polícia montada de Los Angeles, EUA, na tarde de ontem, prendeu um homem que se fazia passar por surdo-mudo. De carroça, o mímico carregava o figurino do rebelde Zorro. O rebelde ia voltar a agir, pensaram. O mágico amador sumiu em meio do caminho e sobraram somente alguns vestígios, uma máscara e um bilhete para Disneylândia.
Na época ninguém desconfiava da identidade do Zorro. Um fidalgo que estudava esgrima na Espanha. Um Quixote que se deu bem no novo mundo a custa dum criado e dum pai rico. Eram dois, Diego, que tinha o dom da esgrima e o alter ego surdo mudo, ouvinte, mímico, mágico, roupeiro e cozinheiro, Bernardo. Os inimigos eram homens maus, todos de bigodes e meio parecidos com Diego de La Vega. Com cargos de comandantes e generais faziam o mal por ambição, oprimiam o povo. A justiça estava nas mãos débeis de um sargento gordo, ingênuo e ébrio e nas do justiceiro noturno. O povo eram os camponeses, servidores das estâncias e alguns índios que restaram por ali.
Descobriram que na casa de um tal Alessandro se tramava política. O dito surdo-mudo usava passagens secretas por trás de guarda-roupas, cristaleiras e outros móveis, para passar de um anexo a outro da residência e lá escutar os planos dos inimigos, em cujos ouvidos sortudos sempre se faziam ouvir. Desconfiava-se que o sargento gordo do povoado dava cobertura ao bandido por alguns copos de vinho e por boa conversa. O cabo que servia com o dito comandante via-o sempre na taberna a beber. Há indícios de que o Zorro queria conquistar a Califórnia e depois o mundo moderno, como defensor dos pobres e oprimidos.
Esgueirava-se por trás de uma ramagem, onde treinava o seu animal, arredio a estranhos. Um esconderijo bem camuflado e de onde surgia sobre a montanha em seu cavalo negro, empinando, empunhando a espada a tocar o céu e a fazer descer raios. Descia à noite sobre o vilarejo para abrir prisões e marcar a grafiteiro o seu Z por todo o canto. Os adversários não morriam pelas suas mãos. Não assustava as crianças! Quando morriam era por alguma queda ou acidente que causavam a si mesmos. Zorro limitava-se a marcar-lhes o destino. Acordavam com o Z na testa ou nos fundilhos.
Fazia a maior bagunça nas hostes inimigas. Subia sobre os telhados do quartel, escapando de tiros dos soldados, escalava muros e paredes, enfrentava vários soldados ao mesmo tempo, derrubando-os num só golpe – é a força do mito. Um pequeno tombo já os punha a nocaute! Nós, crianças, não percebíamos. No chão a espada dele valia por dezenas das dos soldados e depois, subia o muro novamente, desviando de algum eventual tiro, pelo alerta inadvertido de alguma ordem de fogo de um sargento atrapalhado ou de um comandante colérico. Sempre escapava. No alto, a um assobio que só o seu cavalo ouvia, a montaria se postava do lado do muro alto e branco do quartel, conforme o combinado: espreitar o momento oportuno numas das ruelas sombrias, com as orelhas em pé, a ordem de comando, o assobio. O cavaleiro, num salto de pernas abertas, cai das alturas sobre a cela novinha e vai embora zombando dos adversários que os acompanhava pelas pradarias, numa corrida de cancha reta, onde só o mascarado sai vencedor. O cavalo do Zorro corre mais, é mais bonito, elegante e por fim, quando cansa da brincadeira a despedida, fazendo a corte com a espada: Adios, senõres!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009


Eta, cavalo bão! – Publicada na tribuna Piracicabana em 19/12/08

Um cavalo bom de tração e montaria. O bater de patas na cocheira, o olhar de mansidão daqueles olhos enormes e redondos, mastigando ração. Conhecia o dono. De manhã, após um assobio ouvia-se o bater de cascos pela invernada. Parava imponente, mas abaixava humilde a cabeça ao laço do destino. Puxar carroça ao mercado. O cavalo fugira algumas vezes e logo fora achado por vizinhos. Ia comendo o capim da beirada do sitio e logo passava a cerca sem se dar conta da demarcação humana. Vinha humilde e com ar de inocente pela rédea de algum tropeiro, separando dos outros perdidos em busca da liberdade.
Quando morreu o sultão, o dono não quis comprar cavalo ali, porque os ciganos tinham fama de pintar os animais com carvão e vendê-los à noite. Não conseguia achar outro animal igual ao seu. Cavalo de saudosa memória. Bonito, imponente, forte, com uma marca branca na testa, sinal de sorte. Virava-se com um burro mesmo, que empinava arredio na carroça e fazia o cocheiro valer-se do chicote, quase em desuso, devido à obediência do cavalo de outrora. Era um burro empacador e nem o látego o tirava do lugar. O dono lhe oferecia alface, cenoura e irado, acabava lhe dando o chicote no lombo mesmo, sem nenhum resultado.
Saiu à procura de outro animal numa montaria emprestada. Passou pelos ciganos e foi em frente. Chegou a um sítio de um caboclo. Foi abrindo a porteira sem desmontar. Antes que passasse no caminho de serventia, um homem apareceu acompanhado de um menino armado de espingarda. Teve de parar ali mesmo sob a mira inocente de um mau atirador. O pai veio ter com ele. Para seguir tinha de pedir permissão, aquilo era propriedade privada. O menino de chapéu atolado na cabeça mirava o estranho e perguntava ao pai se já podia atirar, como quem pratica tiro ao alvo. O estranho se escondia na sombra do mourão e se explicava até que o pai mandou o menino baixar a arma.
Entrou no sitio e o dono da propriedade lhe foi gentil, dizendo que se estava a negócios não precisava ir mais longe. Tinha ali mesmo um cavalo de primeira. Foi negociando e enredando o estranho, o filho o acompanhava com a arma abaixada. Uma conversa simpática foi tomando conta dos dois. As lembranças do cavalo morto, suas façanhas, os préstimos dele. O velhaco serviu um café ao visitante ameaçado, fê-lo sentir em casa e já à tardinha, escurecendo, foi com ele para cocheira junto com o menino à socapa. Ali estava o cavalo. Na verdade, um pangaré cansado e velho, à sombra da cocheira e visto à silhueta. Mas a caboclo ia dizendo que era bonito, altivo. Igual ao seu sultão. Olha os dentes, a pelagem, o rabo, as patas. O trote dele é belíssimo, forte e marchado, as orelhas bem formadas, era um cavalo de filme mesmo. Puxava toras, carroções de milho, montaria para mulher e com pouca comida, com pouca água, tinha a resistência de um camelo.
O filho seguia a conversa com os olhos pra lá e pra cá, já sem o ímpeto do primeiro alvo, admirado com as palavras do pai. O dono do Sultão, ainda sentido pela morte recente de seu cavalo, com pouco dinheiro, ia transferindo o seu afeto pelo novo animal. Aquele quadrúpede ali mexia com o seu coração. Eta, cavalo bão! Sentiu. O negócio estava quase fechado, mas o menino se interpôs: - Paiê, se o cavalo é bão ansim, vamo ficá cum ele, ué!
Da contribuição verbal de Alessio Quartarollo

O coroinha e o estilingue

O brinquedo de menino peralta era o estilingue. Joãozinho mirava o alvo e pá! Caía andorinha, tiziu, o que tivesse asas derrubava. Só não acertava em avião, devido à altitude e em anjo de igreja, que era um alvo parado. Até no cachimbo do avô já lançara um projétil. O velho correu atrás do neto, mas, hilário, perdoou o depositário de seus genes, também fora peralta em criança.
Apesar de todas as malcriações, era o coroinha, sob protesto de uns e outros o padre mantinha o herói das travessuras a servir lhe no ministério sagrado.
O padre bonachão ouvia o assunto, sério na frente dos reclamantes, mas ao adentrar a sacristia ria à só. Não tivera tempo de ser menino, não teve tempo de fazer peraltices; na idade da razão, os pais lhe colocaram no seminário católico. A vocação veio depois do fogo das tentações, sem mulher e sem filhos, velho, tornou-se o que era. Padre de vila.
O padre solene, olhando para o povo, de mãos juntas, não perdia os olhos do acólito inapto. Se fosse pegar a água antes do vinho, comunicava-se em código e por caretas que pegasse o vinho. O povo não percebia. As pessoas, em estado de graça vinham mansas e puras de coração, viam pelos olhos da fé o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Cristo e o peralta com pintas de sol, com olhar de soslaio, de quem reconhecia suas vítimas: a mulher do barbeiro de quem quebrou a vidraça, a moça que acertou o traseiro e outros tantos casos, perdoados em confissão particular.
As coisas iam bem até que quis acertar uma andorinha em vôo dentro da Igreja e quebrou um vitral. Ali era a casa de Deus, esbravejou o padre ao saber pelo sacristão. Ia chover dentro e até vir o pedreiro... Ia ficar caro. O povo que mantinha o templo com dízimo ia cobrar dele a falta de cuidado com o coroinha, que mantinha aos serviços do altar. Resolveu tomar uma medida extrema, corrigir o garoto e aplacar a ira da comunidade. Tomou o estilingue de Joãzinho. O padre fez-se de insensível, reteve a arma consigo e para o menino não pegar colocou-o no bolso, por baixo da batina. Bem seguro.
O menino seguia bem, acabaram-se as peraltices e o padre estava feliz, resignado, mas mantinha o estilingue ali, no bolso debaixo da batina, consigo. Numas das missas dominicais o bispo, que chegara ao meio da cerimônia, participava do primeiro banco, cheio de fé e dizendo as orações conjuntamente com o padre, de cor. Fraco de oratória, sem manifestar seu pensamento cotidiano e sem alvejar os corações do povo, tinha medo até de falar. O menino, ao lado, suspirava desatento. Era a hora de servir o vinho. Então fez os costumeiros gestos com as mãos sob a mesa, mas o acólito não o servia. Manteve os olhos enlevados e fingiu uma dispersão angelical até que abaixou, beijou o altar e sussurrou: “...o vinho, João...João, o vinho”. E Joãzinho disse: “dá o meu estilingue, seu padre!”. “O vinho, pelo amor de Deus!”. “Dá meu estilingue agora!”. “Depois. Aqui não!”, retrucou o padre, todo paramentado. “Então não tem vinho, seu padre”. Assustado, na hora mais solene da missa, pediu que todos meditassem sobre aquele mistério e fechassem os olhos. Quando todos assim fizeram, virou-se num aperto pra cá e pra lá e levantando toda a indumentária litúrgica, puxou o dito estilingue e passou ao coroinha.


Texto e enredos criados da contribuição verbal de Alessio Quartarollo, meu pai.

Seu Vizinho

Seu Vizinho, era como o chamavam. Logo associei com a brincadeira de infância, nomear os dedos das mãos: seu mindinho, seu vizinho, pai de todos, fura bolo, mata piolhos... Vizinho era morador contíguo ao meu jardim e a quem nunca lhe perguntaram o nome, talvez por ser sisudo quando não quer conversa. Era de um bom dia gutural e seco, olhando para o outro lado. Não esperava assunto, já ia andando.
Fumava, via-se em meio a nevoa, enquanto cortava a grama. Ia de lá para cá com a máquina barulhenta a retaliar gramíneas e pedras pela trilha verde de cheiro adocicado. Tossia empunhando a máquina com a mão direita incansável, enquanto fumava com a esquerda esquecida, como se a direita não soubesse o que a esquerda fazia. O Rom-rom da máquina acordava a redondeza toda e podiam-se ouvir bons-dias contrariados pela rua, mas era assim. Ele ditava a hora de se acordar e de responder aos cumprimentos. Se alguém da família lhe alertasse, dizia que já era tarde.
A máquina ia e vinha no imenso jardim, colhendo o excesso de mato, grama e as flores da esposa que olhava da porta, sonolenta e preocupada. O marido não se emendava mesmo! Seu jardim florido ceifado junto com o mato e como se diz, o trigo e o joio, até que o motor e o ruído pararam. Alivio. Não. Porque numa das idas e vindas com o cortador, cortou o próprio fio elétrico da máquina. Sem se dar por vencido, emendou-o com fita isolante, sem desligar a energia e continuou o vrum ensurdecedor e novas paradas, por cortar o fio novamente. Agachava fazia o reparo com as duas mãos açodadamente, enquanto o cigarro queimava na boca. Foi cortando, cortando, até que passou com a máquina sobre um cano plástico, encharcando o quintal. Assim mesmo recusou ajuda, deixou o cano lá até que o encanador fechou o registro, a chamado da esposa.
O tempo é outra coisa que o Seu Vizinho o faz de maneira própria. Cinco minutos para tudo. O seu carro está obstruindo a saída e entrada da garagem do domicilio alheio, o tira em cinco minutos, seus cinco minutos, contados vagarosamente. Seus assuntos sempre são prioritários. Quando vem ainda quer apertar a mão aflita e um sorriso de “pra que pressa?”.
Ao conversar na calçada, na frente dos transeuntes para distrair o mal entendido, argumenta continuamente, falando de si, olhando para dentro de um mundo que só ele acredita. É um homem arrojado, bem sucedido, um boa-vida até. Gosta do que é bom. Bebe o seu uísque caro e fuma o seu cigarro com filtro. Compra o que lhe aprouver, de um lugar o dinheiro sempre vem. “Alguém tem que me dar”, arremata. Um ar de malandro ingênuo com o que lhe sobrou, bebida e cigarros à noite, nos engodos dos anos. Os brasões da família já foram para o reciclável, mas ele ostenta o nome como se vivesse na Idade Média.
Com o tempo passou a invadir meu jardim, quis até aparar minha grama, consegui evitar, sem ofendê-lo. Adoro borboletas e beija-flores por ali. Já não ligo se estaciona seu carro na frente da minha casa. O faz por pretexto, para conversar, eu sei. Quer repassar todos os “bons” livros que lê, é como se ninguém soubesse daquele enorme tesouro que possui. Li alguns de relance, são boas receitas de como fazer isso e aquilo, mas não ensina o seu Vizinho a conviver com o “seu Mindinho”.

domingo, 1 de fevereiro de 2009


Efeito Espacial

Acordei com muitos latidos e um clarão na janela. O vento de um falso outono revolvia na noite, num vrummm medonho. Mais cadente, um barulho supersônico de algo a deslizar sobre as bananeiras do quintal. Que luar intenso! Acordei minha esposa, admiradora de luares. Estava frio, mas tremia de medo. A árvore vista de nosso leito estava com a copa iluminada por baixo. Por que sentir medo? Afinal era só mais um fenômeno atmosférico. Outono na primavera, frio no verão e estas coisas que qualquer cientista explica muito bem. É o homem que anda mexendo com o planeta e ele estufa. Os latidos dos cachorros eram coisas de algum gato sobre o muro. Ia dormir novamente, mas minha esposa atentou para a estranheza. As árvores se mexiam muito e não ia chover. Aquilo não era normal!
Não me restou alternativa, a não ser sair para o quintal da casa, no relento frio da madrugada, em meios aos latidos e ver aquele fenômeno à porta da minha cozinha. Um objeto luminescente giratório planando sobre o quintal. Lá estava uma nave alienígena. Voltei para dentro e fechei a porta com tranca, com medo, mas fingindo coragem. Era melhor não ter visto, agora tinha de tomar uma posição, voltar lá fora e...sei lá, estabelecer contato, antes que ela o fizesse e de camisola. Já pensaram?! Eu era o homem da casa e fui.
Iria usar o seguinte termo: a primeira diretriz da frota estelar, do seriado Star Trek, de “não-interferência” em outros planetas e quintais. Meu único argumento conhecido. Tive que acalmar o cachorro que ficou atrás, nas minhas canelas, medroso como o dono, a minha esposa olhava da porta me dando coragem e me empurrando com um gesto de “vai”. A nave era pequena demais, uns cinqüenta centímetros. Aquela coisa luminosa e verde girava de atordoar dançarino. Que falta fazia um capitão Kirk, um Picard! Como falar com aqueles homenzinhos?! Sem fasers ou outra arma do século XXIV, ia me socorrer com uma pá de jardim. A abdução estava descartada – pensei - porque eu não caberia naquele veículo minúsculo. Mas num segundo me vi dentro daquela navezinha, em miniatura como meus abdutores, olhando para o telhado da minha casa, com a parabólica e tudo. Senti vertigem. A pá de jardim do meu arsenal de defesa ficou caída, quando me sugaram à nave.
Navezinha fria, eu de pijama listrado e com toca colorida ali, num encontro de protocolo interplanetário, numa negociação futurista. Falava o trivial português, um pouco caipira, que minha mulher entendia pela convivência. Pensei que falassem uma língua meio anfíbia, vulcano, ou outra do seriado Jornadas nas Estrelas. Mas falavam um português “difícil”, como os lusos mesmo. Ofenderam-se com meu linguajar do cruzeiro do sul e minhas alegações sobre invasão de quintal alheio, da “primeira diretriz de não-interferência” e lançaram-me sobre as gramíneas, ainda em miniatura e humilhado e foram para outros quintais do terceiro mundo, covardes! Escalei pelas ramagens do alecrim e passei sob o portão. Meu cachorro parou de latir, veio me cheirar em má hora, se gostasse de mim poderia ter me devorado, não fosse um rato que passeava comigo do outro lado do muro. Jogou-me de costas numa lambida e foi em busca de outra presa de maior estímulo, a caçador. Fiquei dentro de uma casca de banana até o medo passar. Usei a casca como escudo e fui. Passou um grilo na minha frente, que susto! Parecia uma moto em rua principal. Tive de me ocultar de algumas aves notívagas, esgueirando até perto da máquina de lavar, quando um jato de água me jogou no inicio da trajetória, chamando a atenção dos animais domésticos e da coruja que se postara num galho da goiabeira. Minha mulher segurava um chinelo na mão, confundira minha movimentação com uma barata. Espreitava-me. O som miniatura da minha voz se perdia naquele quintal enorme.
Sentia-me num mundo perdido, pré-histórico, em meio àquelas feras soltas ao meu encalço, dentro do meu quintal. Tinha de fazer algo. Minha esposa que espiava da porta, não conseguia me ver mais e se andasse me pisaria. Foi então que, nessa retração à pré-história, descobri um palito de fósforo perdido no chão e com esforço esfreguei-o no cimento e as feras temeram-me. Levantei o palito como uma tocha e fui indo em direção a minha esposa, para que me visse. Confundiu um vaga-lume a barata de antes. Ia chinelar. Mexi logo o palito no ar para fazer um sinal de fumaça, não sabia bem qual, mas saberia que eu era uma vida inteligente afinal. Não deu certo. Ela errou o golpe, visto que chinelava e virava o rosto para não ver, tamanho o asco. Afastei-me, fiquei com muita vontade de lhe queimar os dedões. Que raiva! Mas precisava do palito aceso. Ela cresceu para cima de mim, arrogante e veio em sombra e em pessoa a me sobrepujar. Eu era um rato, uma barata, um vaga-lume, um...monstrinho. Cai no ralo, não sabia nadar, o palito apagou, mas ficou preso. Fui subindo, vendo-a por entre o gradeado, à minha procura. Ia me matar afinal. Não sabia desse seu lado tão pérfido. Ia me matar! Sem nenhum julgamento, sem nenhum motivo! Mas pude ainda observar debaixo a sua excitante figura, esguia e bela sob a camisola. Desistiu por achar-me sem importância. Não estava à sua altura.
Dormi dentro do ralo, segurando no palito de fósforo apagado, no som das gotículas derramadas pelo vento, numa acústica tubular. Sentia-me um rato, quase sentia o vento pelos pêlos das minhas narinas alongadas. Ela voltou, senti-lhe o cheiro agridoce de seu medo. Agora já assumira minha condição selvagem. Os alienígenas que dominassem o mundo, que não era mais meu. Fugiria para outro quintal e dali para outro até achar o meu destino. Ia saindo quando meu cachorro me deu uma patada, rodei no cimento até a porta, fiquei debaixo do salto da minha esposa. Não me viu e parou para dar os carinhos que eram meus ao cachorro. Eu me escondia. O cachorro cheirava, cheirava e pelos carinhos esqueceu da presa. Aproveitei a distração e iniciei a retomada do meu lar, ainda que na pele de um espécime. Fui sorrateiro, esquivei-me pela cozinha. Podia me esconder para comer qualquer migalhice. Após o café, minha esposa pegou a toalha e jogou as migalhas aos pássaros enormes. Não me sobrou nem uma casca de pão seco, em meio àquele perigo de monstros alados. Minguava à fome. Era o último na cadeia alimentar, presa para qualquer passeriforme, pombas, pardais e até mesmo aos tico-ticos. Minha voz era qual um zunido de um besouro.
Minha esposa saía, olhava para o céu e chorava, pensou que eu tinha sido abduzido. Como dizer para ela que eu estava ali, vivendo a vida de um animal qualquer, rejeitado pelos alienígenas pelo meu português ruim. Chorei também, depois de muito tempo. Já não a via, não a olhava, deixava que sua silhueta preenchesse o espaço enorme à luz frágil da cozinha.
Ela era uma caboclinha feliz e eu não sabia o que dizer a quem sempre me conhecera pela convivência, mas era um selvagem pela primeira vez. Pulei sobre uma viola velha e caí dentro do estojo, tentei com minhas patas dedilhar uma moda de viola. Mas era muito ruim como violeiro, deixei me ficar qual vivente anônimo na natureza. Ela triste pegou a viola e tocou uma canção com doçura, saudosa de mim, ou daquilo que eu era, deixando-me beber de suas lágrimas e finalmente me viu dentro da viola e de seu coração. Pulei entre as cordas e comecei a crescer novamente como um príncipe moderno, com meu pijama listrado e minha toca colorida. Se não somos alienígenas, podemos ser alienados dentro de nossa própria realidade.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Publicado em 05/09/08 na tribuna Piracicabana
(Breve apanhado sobre a peça do grupo Andaime)

Antonio Chapéu (que volta aos palcos, como ator, sempre), Márcio Abegão, Bruno Agulhari, Maria Trevisan, Barbosa Neto, Jonathas Beck e Charles Mariano. Na parte técnica, Jonathas Beck toca as músicas ao vivo e Luzia Vaz opera a luz. Aqui coube o nome de todos. Na publicação do TP, coloquei os nomes dos atores em parentesis, mas para adaptar aos números de caracteres tive de omitir o da iluminadora, que por sinal é muito iluminada.)

Patacoadas de Cornélio Pires

Encontrei-os em sua vidinha – senti-me o próprio Cornélio Pires. Trajados a costume, as pernas das calças enrodilhadas no tornozelo, com “as mão no jueio e um cumprimento respeitoso”, ficavam “iscuitano causo ou oiano im vorta”. “Inté” parecia um domingo de tardinha e que coisa interessante! Numa venda da vila cheirando a pinga e a café de coador, todo mundo se reunia ali, uma viola, uma moda daqui, uma prosa pra acolá. Parece que o tempo parou nas sombras que vão descendo o espigão e o caipira sabe mesmo esticar o dia, jogando baralho, cantando, proseando ou mesmo calado como aquele caipira mulato do canto (Antonio Chapéu), picando tranqüilo o fumo de corda, sério, atento aos causos, caipira é homem de respeito. Outro “cascando” laranja, “assuntando” com o “zóio” as provocações do sobrinho (Bruno Agulhari) da cidade (mai o que cê tá fazeno aqui?), cujo “objeto de estudo” para faculdade é o caipira, “óia esse daqui, parece de cera, meu!”. Juca Morera (Márcio Abegão), sabe se desvencilhar de ardis intelectuais, “faiz o cê memo, ô,ô cê sabe fazê!”, com a naturalidade de seus gestuais caipiras. “Saci...exiiste...passô um aqui agorinha”. Juca Morera mostra com sua eloqüência o pavor que um saci causa aos animais domésticos, galinhas e cavalos. Admira-se o jovem que saci, "com necessidade especial”, anda saltando com uma perna só, assusta e monta os cavalos pela noite afora e ainda faz trança na crina deles. O sobrinho pede uma imitação de passarinho ao tio e começam os trinados e assobios à imitação de aves, sapos e grilos, até o caipira mulato e sisudo afina a voz para imitar galinha d’angola. Esse caipira mulato é mais misterioso, desconfiado, mas quando pega na viola canta apaixonado. Cornélio não o perderia por nada. Os poemas de Cornélio declamados e cantados com expressão dramática e por vezes, despercebida a um leitor apressado.
Se não pode achegar-se à amada (Maria Trevisan), cheia de recatos, segue-a respeitosamente pela igreja, senta onde sentou, cheira o seu cheiro e deixa-lhe um beijo na fitinha de sua devoção, com amor e fé, tendo ele completado o ato de amor idílico, à espreita dela de “zóio espichado” em sua performance como dança de acasalamento, foge sem mais. Há uma promessa?
Jogo de baralho. Atenção em volta da mesa. Gestos, truques, tossidas, cuspidas perigosas – é bom os curiosos saírem de lado! No final do jogo, cada um canta a vitória com seu mote, mas um vai batendo outro com sua carta, até o ganhador final.
Os causos, se mentiras são, não prejudicam a ninguém. Um caipira (Charles Mariano) “viu” oito irara, caça raríssima...outro caipira (Barbosa Neto) contesta. O macaco do circo subiu no poste e trouxe o povo para fora. Como fazê-lo descer para o circo? Macaco gosta de quê, compadre? O cururu se inicia entre uma pinga e outra, o dono da venda acompanha e no refrão “oilarilarilarai” o cantador vai pensando na resposta inusitada e em rima, que a platéia ovaciona.
A tempestade na escuridão assusta na noite de “guardamento de defunto”. Os causos de medo arrepiam. Os entes folclóricos assumem vida própria nos olhos, caretas e pronúncias desses brasileiros, à luz de velas.
A peça é um espetáculo numa estripulia musical (Jonathas Beck) ao longo da apresentação, que repercute nas tardes quentes e em noites enluaradas ou tenebrosas do sertão de casebres e da venda à beira da estrada, “onde os vi e me vi”. (Direção de Luis Carlos Laranjeiras)

“Merda" Merda”!

Contentava-me em sentar-me nos primeiros lugares sem pagar ingresso. Em princípio apaixonei-me pelas personagens, pelo figurino e pelos gestos tão precisos e preciosos de cada um, quis conhecê-los, como muitos expectadores. Comecei a acompanhar o grupo e a assistir a todas as apresentações, sempre esperando a aparição das personagens com suas falas. Por vezes, a personagem deixava transparecer a consciência além de si e via um detalhe, percebera pelos olhos do ator um fato diferente, fizera uma homenagem ou brincadeira numa palavra. Começava a peça, eu não conhecia mais os atores. Com dadivosa generosidade emprestavam os olhos, as lágrimas e o corpo à sua personagem, numa relação íntima. Quase nem à minha esposa atriz conseguia ver dentro da constituição de sua personagem, ainda que a procurasse no canto dos seus olhos. O público e ela um devoto comprometido com a festa e seus festeiros. Meu coração iria checar depois se me amava ainda.
Outra apresentação na agenda. Ônibus, cenário e figurino pela estrada. Lá vão pela estrada, as cenas repassadas, as cantorias da peça. Os artistas, descontraídos, carregam as roupas das suas personagens, felizes em reencontrá-las. A arte é vida transformada. Lá uma cidadezinha pequena, um pequeno teatro. Descer e arrumar o cenário, adereços e figurinos.
Chamaram-me para “dar uma força”. Descasque as espigas de milho para a cena da família, põe a cana e o facão para a cena dos cortadores de cana, passe o terno do Quin e a roupa do devoto, puxa o barco do Nerso daí, joga os chapéus naquele canto. Fulano já chegou? Não, ele vem de carona, o Diretor vai vir?
Tudo ali misturado, atores, cenário, roupas, figurinos, atores, rotunda enorme movida por roldanas, sombras, personagens e eu lá e cá, às voltas com aquele ambiente de um vai e vem. Um sorriso, uma piada, um oi de alguém que já me vira e conhecia a minha atriz-esposa, outro que me confundia com outrem. O cenário já posto em teste de foco e de luz vermelha, verde, âmbar, noite, dia, provindas de refletores enormes de luz de chão, cruzada, de fundo, de pino. Ia sair no final para aguardar o espetáculo na platéia, seguraram-me, deram-me um boné, uma roupa branca para figurante na procissão do divino. Não era ator, nem tinha formação alguma nessa arte, mas para figurante servia.
Na hora da apresentação todo o caos da coxia se arrumou como que por encanto, num mutirão sem líder. Os atores já incorporaram as personagens literalmente, debaixo camadas de roupas, da primeira a última personagem interpretada. Os atores acorrem para junto do círculo, misturam-se às outras mãos que balançam para cima e para baixo, no centro, numa onda uníssona e crescente de entusiasmo e energia para espantar qualquer azar:...vai, vai, vai, úi, úi, úi... ãn...ãn...Andaime!!! As palavras são como que apenas sons, uma glossolalia, como o cumprimento que só se percebe o sentido quando se recebe: Merda. Merda?! Nada menos que isso que ouvi daquelas caras e bocas sorridentes e alegres como crianças, que me abraçavam e apertavam-me, dali fluindo intenso amor e gratuidade.
Sai de marinheiro, após a “merda”. Ao lado de minha esposa caracterizada de homem e – que escândalo! – beijou-me. Fiquei vermelho sem maquiagem. Nem percebera que a porta não se abrira ainda. Saímos para a rua, os festeiros soltaram os rojões e fomos aos pares cantando “pá agradecê o divino”. Cantei, cantei e imitei os cantadores e a mim mesmo e enfim, descobri que era um caipira de verdade e de mentira. Na entrada do teatro o público, adultos, crianças, mulheres, homens, idosos, olhares de simpatia, carinho, solidariedade, incredulidade e até algum deboche pela nossa “verdade dramática”. Seguimos a bandeira do divino, acenando ao público de caras e carrancas que foram se soltando e percebendo o foco do evento, uma realidade interior pela representação exterior que acaba por consumir esta. Entramos cantando até o palco e o povo nos seguia, assentando-se nas poltronas. No palco, as músicas e danças como a Catira e a Congada; a festa, alguns tropeços de encenação imperceptíveis ao público, tudo é festa, em meio à pipoca e à euforia dos cantadores e devotos, que cantam com devoção e alegria, sem se importarem pela métrica das partituras, caipiras que são, cantam de cor, como os pássaros em poleiros.
Beijei a bandeira do divino e em meio à festa, fui o primeiro a me retirar. O festeiro ia dormir? Ele sim, eu entrei pela coxia, troquei de roupa e fiquei aguardando a peça de lá, olhando de soslaio a reação do público que não me via. Lá fiquei “dando uma força” e tentando não atrapalhar o trânsito dos atores, a troca das personagens, nas penumbras do transitório, “a fuga” por trás da rotunda, a entrada pelo lado oposto do mesmo ator e de outra personagem. Era como adão vendo a criação de um mundo, do meu próprio e do público, só que estava vendo por dentro. A montagem do céu, da terra e do rio que engolira pescadores e ia devorar aos olhos da platéia o adolescente Denirso.
O jovem saiu na luz, caracterizado, tentando acender um cigarro roubado de seu pai, no luar da mata puxava o fogo como vaga-lume para acender o objeto de sua transgressão. O cigarro de “paia”. Assim feito, sentou-se à “margem do rio” (platéia) e deu algumas baforadas e tossidas. Depois de alguns segundos de olhar para o nada em meio à platéia, começou a Fala dele. Na noite enluarada, ouvem-se os cantar de grilos, pássaros e animais da mata e dois cachorros que ladram para ele, o interrompem e o atormentam. Na coxia, vejo o mundo representativo dessa fauna toda. Imitações características, cada um faz um animal bem a seu jeito. Têm de se espremer, arregalar os olhos, se contorcer, forçar o abdômen, para fazer o que os animais fazem naturalmente; mas os atores se superam nesses sons onomatopaicos, numa consciência humana que se aproxima da cósmica. Percebo-os num estado alterado de consciência. É divertido e cômico aquelas “vozes” imitando galinhas soltas no terreiro, patos, macacos, corujas escondidas sobre o toco, cachorros ameaçadores e o bom burro que assopra na cocheira, todos com personalidade própria: “imito a galinha da minha mãe”, “eu tinha um cachorro que latia assim”, “lá no sítio a coruja fazia assim, em cima do mourão, eu gosto de coruja”, “o burro é uma gracinha”.
Em meio às penumbras da coxia, quase que podia ver os ditos animais, aos quais muitas vezes ouvira da platéia daquela “noite no mato”.
(“The End”)