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O blog atém-se às questões humanas. Dispensa extremismos ou patrulhas. Que brilhe a sua luz. Bem-vindo e bem-vinda!

sábado, 12 de outubro de 2013

A gente tinha uma certa revolta quanto a não ter os brinquedos, roupas e cuidados que os filhos únicos ou de outras famílias da cidade, mas tínhamos um quintal inteiro para a gente se sujar e algum carinho dos adultos, éramos bonitinhos, até que éramos, olhem esta foto abaixo, desse menino de cara feia, não se assuste, sou eu controlando a minha raiva de infância, que saía no primeiro xixi e de quando nos convidavam a  brincar de bola ou pega-pega. Eu só queria brincar um pouco, acho. Meu pai, mais bravo que eu, entendia isso. "Vão, vão, acabem de fazer o serviço aqui e vão brincá"
Blogueiro Rrrrr
Lar pobre
As cortinas, vê-se ao sentar nas cadeiras de assento duro, são brancas, velhas, puídas e lavadas, e cobrem um tempo memorável, talvez muitos não gostem, eu as conheço.  O sofá recostado na parede espreguiça de um tempo em que meu pai sentava para ver o Palmeiras na TV. As sombras que o vento balança a cortina traz um pouco da silhueta antiga e eu mesmo estou lá sentado no fundo da poltrona vendo algum seriado. Fora os sons de uma casa de subúrbio, com pássaros e carros, de fora. Lembro quando lá mudamos, vim com meu caminhão cor de vinho que não me desgarrava. Muito tempo passou e todos foram indo embora e eu fiquei. Fiquei para fechar a porta à noite de muitas luas e abrir ao dia de muitos Sóis.
No quarto repousa um velho guarda-roupa feito de encomenda pelo meu pai, na cabeceira da cama que não mais existe repousa os retratos de casamento e dos meus avós, um terço norteia a parede velha e com furos no reboco. De lá me lembro, de lá estou muitas vezes em meu devir, lá dormia meu pai e acordam minhas lembranças.
Na copa o relógio das horas contínuas parou, os ponteiros insistiram em não mais voltear o tempo, o tempo parou, pai, às 10:15 horas de seis meses atrás. Você sabia que eu ia escrever, sempre escrevo, antes talvez se constrangesse, mas agora sabe que escrevo. Mas lá não tem mais relógio não, as horas passam aleatórias e podem ser marcadas na eternidade ou desmarcadas a qualquer hora. O tempo fez isso com a gente, e tanto culto fizemos a esse marcador esquisito que achamos que abria o dia e fechava a noite. Não agora, não mais. O tempo pode correr, eu vou devagar.
Acima, no telhado, algumas goteiras furtivas. Ainda têm. Arrumei muitas vezes, subindo eu mesmo lá e como o tempo, iam pelos vãos dos dedos, pelos interstícios da matéria, pelos vazios da existência; vazio não, preenchido pelas goteiras, aliás, um texto igual a que faço é também uma goteira. Não tem mais arrumação, a vida se escoa. Que escoar, escoe para outra vida, mas qual? Escoa assim mesmo.
Nesses dias tive de dormir no mesmo quarto de meu pai, recostei-me e fiquei, estranho. Comecei a ouvir os sons que ouvia. Sua cama era ao lado de uma janela de um jardim cimentado e o eco trazia muitos sons que ouvira, aos meus ouvidos, ouvindo. Deixei o eco findar-se longe e num sono apaguei na paz do leito de meu pai.

4 comentários:

  1. Oi Camilo que bom que apesar de tudo você teve uma infância legal. Um abraço querido amigo.

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    1. Grato pelo comentário, Sandra.

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  2. É o caminho de todos nós... A ordem natural é essa, salvo algum contratempo!
    [ ] Célia.

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    1. Célia, grato por comentar neste caminho literário singelo de minha alma. abç

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