Conteúdo

O blog atém-se às questões humanas. Dispensa extremismos ou patrulhas. Que brilhe a sua luz. Bem-vindo e bem-vinda!

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Amigos, muito tem se falado na renúncia deste papa atual, muito se cogitou; mas antevendo o futuro, a eleição, somente por um milagre ou acaso será surpresa, mas pode ocorrer como vespa  em formigueiro. A borboleta azul deposita seu ovo em folha e a lagarta cai no chão onde formigas a carregam para o ninho, cuidando dela como suas, devido ao cheiro do feromônio igual, pensam que é sua. Então a vespa entra no formigueiro e fecunda essas lagartas ou parte delas, de forma que de umas nascem borboletas, de outras as terríveis vespas que distinguem o cheiro do feromônio e os biólogos não sabem como ainda, assim como não sabem os analistas políticos e vaticanistas. Então peço que apreciem meu texto, que não vai acrescentar nada, mas tem o cheiro de ex-seminarista. Rsrsrs
O blogueiro
             Vespa ou borboleta
 A diferença entre uma renúncia num governo autocrático com a de um democrático tem proporções inversas. No Brasil, Jânio renunciou para ser levado de volta nos braços do povo e deu no que deu, queria apoio. Na renúncia do papa a coisa é outra. Ele, além de descansar, pode nomear quantos cardeais quiser para eleger quem ele quiser, então daí já se sabe o que vai sair. Essa renúncia é como uma lagarta de borboleta e vai ter a cara de Ratzinger.
Eu esperava alguém progressista para tocar o concílio vaticano II, não alguém para ressuscitar língua morta como o latim. Desse casulo, contudo, pode sair uma vespa e não borboleta e somente então, quem sabe, o concílio continue.
O concílio Vaticano II começou com Roncalli, o João XXIII, e para reforma da Igreja Católica, se não estaríamos rezando em latim ainda hoje. Ele não pôde terminar o concíio, morreu antes. Mas havia nomeado Giovanni Batista Montini cardeal de Milão, que se tornou seu sucessor como Paulo VI e tocou as reformas e presidiu o final dos trabalhos do Concílio. Antes do papa bom como era chamado João, estaríamos rezando em latim até hoje (SEMPRE FOI ASSIM!) e ao se eleger João XXIII, que escolhe o nome do pai João – não de santo, disse que queria que abrissem as janelas e portas para arejar a Igreja, abri-la ao mundo, mas parece que alguém com resfriado ou medo de assalto as fechou. Os estudos de Roncalli o levaram a deduzir que o concílio de Trento fora um concílio mais reformista que antiprotestante, mais reforma da própria instituição católica que contrarreforma. Esta é a postura de um estudioso honesto e autocrítico como João XXIII, de verdadeira humildade, que não teme o advir, mas a justiça; depois dele, o medo se instaurou na instituição e agora o medo maior é a perda de terreno aos evangélicos e espíritas. Se os fieis procuram outros caminhos é porque a Igreja fracassou em profetizar ou o fez de forma soberba e não pelo sopro divino que cerca as consciências. Deve evangelizar a si, antes de proselitar. Buscar aprender com outras culturas, onde tem também o germe divino, e não ficar presa ao romanismo e achar-se dona da verdade, desta é somente depositária e quando o Senhor vier cobrar os talentos (que, segundo a parábola dividiu entre vários), vai irar-se contra aqueles que os guardaram de medo.
OBS: Aos interessados ainda temos exemplares do livro O Seminário, publicado por mim em 2011. Mais informações no e-mail camilo.i@ig.com.br ou no meu Facebook. Abç

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Amigos, uma figura que sempre me fascinou é o apóstolo São João, que me dá a impressão de um cristão firme e sem pieguice, mas amoroso. Então rebato do meu manto este texto que há muito ousava escrever, pois João era, além de um seguidor de Jesus, amigo de todas as horas e um excelente escritor que ditou o quarto evangelho e algumas cartas, onde imprimiu sua visão sobre a fé e sobre as atrocidades do mundo. Observe-se no texto, alguns leitores do jornal me questionaram, nu nos tempos antigos queria dizer com roupas sumárias.
O blogueiro
João é comparado à águia dos evangelistas, numa ordem
de comparação dos evangelistas a animais.
Publicado naTribuna Piracicabana em 08/02/13
Segundo João
São João completa seu evangelho dizendo que se todas as palavras e atos de Jesus fossem escritos não haveria papel suficiente no mundo, ou dir-se-iam, pergaminhos. Tudo bem, João, hoje já destruímos muitas florestas para fazer papel para dar ao livro o papel que achamos que tem e não precisamos dos pergaminhos enrolados do mar morto, nem de fornecedores da cidade de Biblos.
João, descrito como um mancebo que se evadiu nu deixando a túnica na mão dos soldados que prenderam Jesus no Getsemani, no lugar que o mestre traído suara sangue pela forte angústia.  Evadiu, fugiu não, voltou de longe acompanhando a via crucis como podia. Entrou no lugar onde estava o prisioneiro e pediu no lugar que se deixasse Pedro entrar, este assim dentro e amedrontado negou por três vezes, mais tagarela que o galo do vizinho.
O tema da fonte João - esses compilados da vida e obra de Jesus são chamados fontes, porque vêm da tradição e dos vários copistas que escreviam conforme profetizava o discípulo. João é comparado à Águia e quarto evangelista, mas é mais manso que uma pomba e mais astuto que uma serpente.
Durante toda a repressão e perseguição aos cristãos sobreviveu e morreu de morte natural, consagrando a profecia de que “este ficará”. Dos apóstolos foi o único a não sofrer martírio na morte. Sobreviveu a prisões, perseguições, escreveu o apocalipse (revelação) como uma carta às igrejas, inclusive à de Roma, chamando esta de Babilônia para não revelar o local dos cristãos que praticavam seus rituais nas catacumbas - cemitérios subterrâneos sob o trono imperial. De tudo sobreviveu João, sem medo, seguindo talvez o conselho repetidas vezes no evangelho de “não tenhais medo”.
No filme Visão de São João ele é preso e dá testemunho de sua crença e fé, do destemor ao homem e às coisas temporais. Um jovem preso com ele se revolta e é um alto dignitário em desgraça. João pergunta por que está tão revoltado e o jovem responde que foi Roma que lhe pôs lá naquelas condições inumanas. E João reflete e profetiza: “Não, não foi Roma que te pôs aqui”. Elegera o jovem um culpado para os seus problemas e bem à vista, ninguém gostava da opressão romana, mas mesmo assim, era verdade?
Queremos escolher o lugar da nossa felicidade e esquecemos o lugar que o Amor ocupa, o Amor ocupa o lugar que ocupamos, não o que usurpamos.
E-mail para contato: camilo.i@ig.com.br

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Amigos e amigas, o carnaval está chegando e posto um causo, espero que gostem.
O blogueiro
Os olhos do Juquinha
O padre marcou uma procissão pela vila para desagravo às festanças pagãs, como dizia ele. Julgava que o carnaval era ofensa à fé do povo. O padre organizou a passeata religiosa com os andores na frente, mulheres com velas e homens com chapéu na mão, respeito exigia. Em silêncio, somente cortados pelo barulho dos passos dos fieis ou de algum terço que caía das mãos de alguma devota desatenta. Dona Pororoca pegou rápido o terço e o seu Juquinha fazia de conta que ajoelhara com a esposa para catar na terra o tal. Se o padre visse.... e na esquina torta da vila de duas ruas o padre parou. Os meninos olhavam de cima do morro o préstito e as roupas coloridas do padre chamavam atenção, ainda que quisessem dar um aceno aos passantes conhecidos, os olhares frios e meditabundos do padre os repeliam. A cada parada curta - a vila não era tão grande assim - o padre falava sobre os novíssimos (morte, juízo, paraíso celeste e inferno) e as mortificações dos sentidos, dos olhos principalmente. Mais atrás do cortejo e seguindo algum dono vinham cachorros ou vira-latas mesmo.
Não demorou muito para o cordão de carnaval descer por outra rua até àquele ponto, num barulho dinâmico e cadenciado levantando poeira, sem avisar, bailarinas do rebolado, mestres salas e porta-bandeiras, gingando, dançando, brincando, alegres. Os meninos ficaram endoidecidos, os cães seguiram em latidos e abanando rabos, mas o padre se viu numa sinuca como a bola da vez, era a provação para sua liderança religiosa: deu voz de comando para que os fieis se virassem de costas e rezassem o terço baixo, para afastar a tentação.
Os carnavalescos iam passando, o povo recolhido ficava, mas uma curiosidade brotava em seu Juca, dona Pororoca mexia o sobrolho, mas não olhava, rendia-se às contas do terço e rezava mais alto que as outras. O padre vigiava. Seu Juquinha quase virou a cabeça para ver e o padre gritou:
- Quer olhar vai ser castigado por Deus. Vai ficá cego, cego, ouviram?
Juquinha, com medo, continuou de costas, mas as botinhas dele mexiam sozinhas, sambando, em coreografia jocosa, os ombros subiam como que possuídos, o padre o devorava com os olhos como uma pulga que se mata à unha. Juquinha ficou até que se virou ao padre.
- Ah, fica cego, é? intão vô arriscá um zóio, ah se vô.
Seu Juquinha ficou cego de um dos olhos, daquele que não abriu.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Talvez o pirmeiro olhar para um trabalho caseiro não seja muito atrativo, visto que hoje tudo é comprado no mercado, e no mercado de livros, mas fiz um projeto desde o início para lançar uma autobiografia, inclusive minhas traquinagens na área da imprensa gráfica.
Assim como meu livro trata do meu processo de crescimento, uma biografia incompleta, meu trabalho mesmo que inacabado, não vai queimar etapas. Creio que a vida não se resume a livros, e neles tem de ter lugar especial. Grato aos compradores e principalmente leitores da obra.
CRISES DO FIHO DO MEIO e de todos os filhos – MEMÓRIAS E LENDAS
Depois de escrever e reescrever várias vezes uma tentativa de memórias e recordações, uma pequena biografia deparei-me com o título, o tema de muitas vidas, e da minha, A crise do filho do meio e dos filhos em geral, mas a recordação nunca é precisa, vem acompanhada de “pegadinhas do destino”, com histórias da família que acrescentam um ponto e algumas interrogações até, crises nos levam a questionar.  Foi assim que fui forjando o livro que ganhou vida e status de obra.
Personagens que jamais sonhara em colocar vieram das sombras e tomaram forma à luz deste tema e das lembranças caras como o inspetor de quarteirão Heitor Lobo, como os vizinhos do final da rua, a alma-do-outro-mundo, a porquinha fujona, a mulher beija-bunda, seu João que tomava pinga na mamadeira, o tio das onças, a horta e muitos outros que esticaram o livro.
A obra contempla o passado, mas não é um passadiço de saudosismos, é a força vital de construção e quebra de ciclo, as crises. O ciclo familiar é reminiscente mesmo no velho e a criança ainda é jovem no idoso carregado em maca, a interioridade tem das suas.
Há uma trama que se compõe de capítulos interligados e sucessivos com os diálogos das personagens. Meu irmão fez o prefácio e alguns dos irmãos confessaram que foi isso mesmo. Foi? Era assim ou assim foi visto por gente miúda que agora se vê a si mesma, mas é bom se ver no colo de um pai amoroso, em pleno vigor da infância, ou sentir como nas primícias da vida. Pular, brincar, correr “nos campos do senhor”, sem culpa; nem sempre...       
Assim vejo o meu processo, mas o leitor relaxe, o texto é bem fluido e sem complicação, com sabor e vibrante até, mesmo em crise se pode ser muito feliz. Mas quem disse que aquilo era crise? Para uns não, para outros sim, para você leitor pode ser mais um modo de ver as coisas chãs. O chão é próximo das crianças e das nossas experiências mais palpáveis.
Só resta perguntar se tudo isso está no livro, está. E finalmente, saiu o livro porque maduro, todos os acontecimentos fecharam como que num ciclo vital. A família nas Glebas Califórnia e depois no bairro alto onde meus pais residem até hoje.
Saudações do filho do meio.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Segundo J O Ã O

Amigos e amigas, grato por me lerem. Hoje faço uma reflexão sobre João e que vinha borbulhando há muito no meu cérebro. Espero que gostem do texto singelo que vos apresento. Como escrevi de imediato, espero que não tenha muitos erros; se tiver, corrijam-me.
Grato.
O blogueiro
Camilo
Segundo João
São João completa seu evangelho dizendo que se todas as palavras e atos de Jesus fossem escritos não haveria papel suficiente no mundo, ou dir-se-iam, pergaminhos. Tudo bem, João, hoje já destruímos muitas florestas para fazer papel para dar ao livro o papel que achamos que tem e não precisamos dos pergaminhos enrolados do mar morto, nem de fornecedores da cidade de Biblos.
João, descrito como um mancebo que se evadiu nu deixando a túnica na mão dos soldados que prenderam Jesus no Getsemani, no lugar que o mestre traído suara sangue pela forte angústia.  Evadiu, fugiu não, voltou de longe acompanhando a via-crucis como podia. Entrou no lugar onde estava o prisioneiro e pediu no lugar que se deixasse Pedro entrar, este assim dentro e amedrontado negou por três vezes, mais tagarela que o galo do vizinho.
O tema da fonte João, esses compilados da vida e obra de Jesus são chamados fontes, porque vêm da tradição e dos vários copistas que escreviam conforme profetizava o discípulo. João é chamado é comparado à Águia dos evangelistas, mas é mais manso que uma pomba e mais astuto que uma serpente. Durante toda a repressão e perseguição aos cristãos morreu de morte natural, consagrando a profecia de que “este ficará”; dos apóstolos foi o único a não sofrer martírio na morte. Sobreviveu a prisões, perseguições, escreveu o apocalipse (revelação) como uma carta às igrejas, inclusive a de Roma, chamando esta de Babilônia para não revelar o local dos cristãos que praticavam seus rituais nas catacumbas, cemitérios subterrâneos do trono imperial.
De tudo sobreviveu João sem medo, seguindo talvez o conselho repetidas vezes no evangelho de “não tenhais medo”. No filme Visão de São João ele é preso e dá testemunho de sua crença e fé, do destemor ao homem e às coisas temporais. Um jovem preso com ele se revolta e é um alto dignitário em desgraça. João pergunta por que está tão revoltado e o jovem responde que foi Roma que lhe pôs lá sob condições inumanas. E João reflete e profetiza: Não, não foi Roma que te pôs aqui. Elegeu um culpado para os seus problemas e bem à vista, ninguém gostava da opressão romana, mas mesmo assim, era verdade?
Queremos escolher o lugar da nossa felicidade e esquecemos o lugar que o Amor ocupa, o Amor ocupa o lugar que ocupamos, não que usurpamos.

domingo, 13 de janeiro de 2013

        Amigos, grato pelos acessos de carinho e atenção a este blog. Grato também aos que adquiriram Crises do filho do meio - Memórias e Lendas. Sou eternamente grato, não só porque adquiriram, mas porque lerão minha obra. Hoje posto um texto bem humorado e do cotidiano de casais.  Estou com problemas para postar imagens, antes tão fácil - coisas da net.
O blogueiro
        Contas de travesseiro
São um, dois, três... Três carneirinhos brancos e macios que pulam a cerca. Que carneiro? Gritou o marido, que acordou a esposa divagante. Eu conto carneiros, ora! No terceiro já estou dormindo, viu! – disse ela.
O marido não dormia. Nas contas de travesseiro era dinheiro e se alguém interferisse soltava a tropa, colérico. Então a esposa o aconchegava e o meninão dormia recostado ao seio, entremeio a cafunés gratuitos dela. Em sonho fazia contas e cobrava dívidas, em cujo estado mental tinha um haras. A mulher virava-o com um pouco de esforço e o homem pranchava fungando no travesseiro da cama, num sono como num laço. No quarto se misturavam carneiros e cavalos num mesmo curral. Puros sangues e puros pelos.
O filho do berço ao lado deixava a chupeta e ia puxar o rabo da imaginação, dos cavalos que batiam o pé junto ao seu berço. Os pais acordavam com um choro e depois um sorriso de espasmo. Com o que sonhara o malandrinho a essas horas da madrugada? Com os carneiros da mamãe ou com os cavalos do papai? Não se sabia, mas a frauda estava úmida e com uma mancha em destaque. Levanta-se a mãe e o amamentava com a canção do “cuca vem pegá”. Como a cuca nunca vinha o bebe sempre dormia como um Jesus da manjedoura depois. Assim devolvia o bebê por sobre a guarda do berço e ia contar os seus carneirinhos, ao lado dos cavalos de raça do marido. Na madrugada o choro de guelras do recém-nascido vinha à tona, o breu do quarto assustava àquele a quem a mãe dera a luz. Risos de espasmos e visão disforme, via pelo tato o que os pais pensavam ver, cuthi-cuthi. Nem aprendera números reais ouvia os pais contarem bichos imaginários e era obrigado a povoar o seu inconsciente de repetições bizarras, porém, naquela idade não podiam regurgitar e a má digestão do jantar engendrava presságios ao casal.
Certa vez, o marido acordou em balbucio de um pesadelo: são um, dois, três... Três cavalos de raça! Eles estão fugindo e valem um dinheirão, segura! – sonâmbulo, dava voltas no quarto na frente dos cavalos imaginários, tentando cercar. Não aguentando o bater de cascos, a mulher fechou a janela e “segurou a tropa” do homem, que falava dormindo. Que cavalo? Disse a mulher enquanto balançava os ombros dele, que lamentava sentado na cama e olhando para o chão – perdi os cavalos, fugiram. A mulher tentava contornar o momento ruim, dizendo: Não perdeu, não; eu compro de volta. “Mas com quê dinheiro, querida?” E ela disse calmamente: não se preocupe, eu vendo meus carneirinhos. Não, gritou ele - Sem dinheiro se vive, mas sem lazer, não.

domingo, 6 de janeiro de 2013

HUGO CABRET
 
A história passa-se depois de 1900, vê-se a torre Eiffel já de construção dessa época. Era vitoriana em que as crianças eram tratadas como adultos, concorrendo para elas os mesmos deveres destes.  O furto famélico, de um pão, era tratado como crime e crianças assim se tornavam “criminosas”. A  História conta que, principalmente na Inglaterra (o enredo se passa na França), os empresários requisitavam órfãos e mulheres para as fábricas, que era mão-de-obra barata.
O menino Hugo Cabret passa pela orfandade com muito esforço em permanecer livre e conquistar um trabalho na profissão do pai, relojoeiro e consertador de engrenagens. O filme gira em torno de um conserto. Do quê? Materialmente é de um autômato, um robô, que o pai de Cabret morre antes de consertar e que pertence a alguém que o abandona. Há uma história singela por trás.
O que é o robô, o que são engrenagens, tecnologia da época, de cujas eram as esteiras e máquinas, onde a eletricidade era gerada com manivela e eletroimãs? Uma das respostas aparece quase ao final.
Hugo sonha que está salvando o robozinho na vala dos trilhos do trem, que ao parar, derruba toda a estação central, cujo lugar se tornou o seu lar. Noutro pesadelo, o menino sonha que está se tornando ele mesmo no robô – como se a máquina tivesse ou algo tivesse o poder de o transformar. Sonho premonitório, porque no enredo “real” do filme acontece, não igualmente, mas de forma análoga. E quem é o robô que salva das linhas trem e de cujas foi salvo pelo guarda de perna mecânica que o perseguia? O diálogo com o criador da máquina responde.  Cabret se desculpa, desconsolado, salvou da destruição completa, mas quebrou ao cair; ao que, o criador do robô abraça a máquina que há muito construíra e diz que estava perfeitamente bem para o que precisava. Ou seja, depreende-se que o valor era sentimental e um símbolo de tudo que recuperara de sua vida e de seus sonhos, mesmo com uma máquina quebrada as engrenagens do seu cérebro voltaram a funcionar – o robô era uma “mera simulação”, projeção.
As engrenagens e os relógios dão o tom aos sonhos da época. Marcam o tempo, o temo é tudo diz o tio de Cabret, que morre no rio Sena e deixa a estação toda aos cuidados do órfão que vive num contínuo despiste ao guarda de perna mecânica e miolo mole, bem mole, e que representa a autoridade da época – ou seja, meninos podem ser bons ou adultos maus. A estação que guarda este homem de uniforme e perna mecânica é por onde a vida de todos passam, sob relógios de idas e vindas de trens, só Cabret permanece na torre, entre as engrenagens. Há algo mais simbólico?
O diretor Scorsese fez uma obra magistral, mas poderia ter feito melhor em minha opinião, pois não colocaria o Ben Kingsley no papel do criador do robô, pois este personagem devia crescer no final e Ben Kingsley, a meu ver, não conseguiu fazê-lo mais que esforço – nesse papel seria outra pessoa, um ator, que se esforçasse para ser duro no início e se desvelasse humana no final. O protagonista de Gandhi é duro, um ator duro. A escolha de Scorsese foi difícil e tentou com Bem. Eu talvez escolhesse outro final, colocaria uma personagem de viagem na história, para dar a sensação do transitório, uma pessoa comum que saísse daquele vai-e-vem em que as crianças trombam e que quase passam sobre a menina em suas pressas.
Os interessados por um exemplar do meu livro Crises do filho do meio contatem-me no e-mail camilo.i@ig.com.br ou nas mensagens do face, eu lhe faço chegar a sua casa, hotel, apartamento, jardim, palácio, e... vou te levar pelos caminhos das Glebas Califórnia junto com o quase-gêmeo e baso.