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O blog atém-se às questões humanas. Dispensa extremismos ou patrulhas. Que brilhe a sua luz. Bem-vindo e bem-vinda!

sábado, 15 de setembro de 2012

Amigos e amigas, um cientista japonês comprovou em fotos os tipos de formação de cristais quando se dirige a uma água e se diz a ela palavras com os mais variadas cargas emocionais, a energia modifica a sua conformação de cristalização. Há inúmeros blogs sobre isso, depois de ler, querendo, veja. De uma coisa é certo, sempre que pomos a trabalhar uma energia boa ou ruim vemos os efeitos. Certos também que, em certas situações, as palavras são meros dispêndios de saliva e o que se sente é o que se apresenta em gestos. Ao lado uma foto do livro de Masaru-Emoto, e abaixo espero que aproveitem o meu texto. Leia, pois, O cristal. 
O cristal

            A moça passava pela calçada de uma rua velha e de casas abandonadas, onde folhas e ramagens subiam pelos muros, despercebidas, comuns como o tempo que passa. Por que mudar de calçada? Pensou a moça, mas mudou pisoteando com seu salto as sombras das altas árvores centenárias, sem nenhum fã a assobiar. A tarde morna a entretinha como os olhos de mãe.  O andar saracoteado dela de repente parou. Um velho como que saído do passado lhe oferecia um cristal. Lindo! Mágico. Pegou-o numa leveza de alma e via-se a drenar nele toda a sua alma. Uma luz radiante e bela, inexplicável. O que é isso?! Quando ia devolver ao velho, este sumira.
            A tarde já não era a mesma então, nem sabe como desceu a ladeira com o diamante na bolsa. Na esquina movimentada até a casa, um garoto a tentou roubar e derrubou a bolsa no leito carroçável. Os carros passaram sobre a bolsa recuperada depois, mas o diamante falso estava quebrado. Era vidro espalhado, misturado a suas coisas. A tarde tornou-se noite e o caminho vago e triste, antes roubassem a bolsa e deixassem a ilusão. Subiu em silhueta a escada apoiada pelo corrimão e mais um degrau abriu a porta. Estava viva.
            O banho e a sopa à beira da cama. Diamante... O velho esquisito foi presentear justo alguém que já aceitara a aversão por pedras preciosas. Habituara-se aos plásticos coloridos e outros badulaques, sem valor. Mais cedo ou mais tarde o sono viria, seu livro já pesava nas mãos que se espalhou nos dedos dormentes.
            De manhã a flor preguiçosa da janela acordou do vaso e disse-lhe bom-dia. O leitor não acredita? O verde amarelado de uma planta costumeira a alegrava e o sol da manhã vinha detrás de alguns edifícios, dando ar no quarto. Ah! Os vidrinhos de dentro da bolsa. Virou-a na mesa e colheu as partículas num pires. Era um diamante, disse com desdém. A luz pela vidraça decompunha em cores através do abajur empoeirado. O mensageiro dos ventos dormia no silêncio do ar quieto. O velho, com orelhas de abano não viria buscar e, no meio de tanta gente, quem vai olhar um velho meio louco.
            Aproveitou o domingo sem namorado e foi pela rua das árvores gigantes, queria encontrar o velho do cristal. Ia lhe jogar o vidro de volta e fazê-lo pagar pela frustração. Achou o velho e antes de jogar o badulaque quebrado, pensou que o velho não dissera nada e só lhe ofereceu aquilo. Não disse que era diamante, foi conclusão dela. Imaginara em seu anseio. Mas sem perder o ímpeto, entregou as migalhas de vidro a ele, que os guardou no bolso do paletó puído. Uma sede súbita acometeu a jovem. Um copo de água fresco trouxe o velho e ela sorveu de um gole, satisfeita e agradecida com um estalo de língua. Num ritual devolveu o vidro de requeijão feito peça de cristal e agradeceu preciosa. Um cristal límpido se formou no fundo do copo, claro como suas intenções. Eram as últimas gotículas cristalizadas com sua gratidão. Era tudo que precisava e o velho desapareceu no ar.

sábado, 8 de setembro de 2012

Amigos, grato pelos acessos desta semana. Posto o  próximo, O felecido e espero que apreciem e se quiserem comentem.
O blogueiro cronista
O falecido
Era um menino no retrato redondo do túmulo em mármore fechado. Dois anjos alados vigiavam o morto. Aquilo fazia a todos condoerem-se. Uma criança!
Em alguns túmulos de crianças não embalsamadas tem até a história, como aconteceu a sua morte, etc. Parei para olhar, já que viera ver o mural do campo santo, cheio de obras e de renomadas paletas; uma vez lá entrei pelo vão do muro do cemitério, derrubado para conserto de final de ano. Nunca tive medo de mortos dos outros, o que temo são os meus, mas todos são levados mais dias ou menos dias, com os anos que tiverem.  Acho que temo mesmo a minha própria, por quê? Acho que tenho matado mortos, só para fugir a este momento e eles voltam, ah, se voltam. Nós somos os mortos, não há momentos a repetir, mas a viver até a última nota do piano ou na pausa longa da aurora.
Tantos se foram, levados ao campo santo e lá depositados. Não, não estão lá, lá estão as lápides; mas aquela criança na foto de lápide? Sua história me pegou desprevenido, um mistério tumular. Somente uma foto antiga e desbotada com um olhar de algum trauma do passado, do tempo que meninos apanhavam e sofriam vilanias de tios ou pais, parentes que deixaram o túmulo sem cuidados, sem inscrição de lápide, em ruínas, agora já descaracterizado, somente portando a foto do morto.
Informou-me o velho coveiro que aquele túmulo era de uma família abastada e há quarenta anos, quando a criança foi tumulada, era tudo ouro e muito ornamentado, mas os ladrões de jazigos os subtraíram. Não havia nenhuma anotação mais detalhada a não ser a verbal que colhi informalmente. Voltei várias vezes, ver as obras do mural e passava pelo túmulo. Ao olhar a foto esmaecida, quase não a via e uma força estranha fazia-me ir lá outras vezes. O coveiro caminhava por ali como em um jardim e não via nenhum parente velando ou prestando alguma oração naquele jazido, mas disse-me o coveiro que lá sim ia um senhor orar. Ora quem era este senhor, deve ser parente e saberia quem era a família – curiosidade de escritor. Pelas informações do velho o homem tinha dias e horários certos; bem podia ser alguma novena. Fui também, sabia que o homem era metódico, britânico. Era assim, sisudo, introspectivo, cenho fechado mesmo e olhar de nenhum amigo. Abordei-o em meio à oração, ousei. Olhou-me de cima de seus óculos escuros, distante, além. Ia cutucá-lo sim. Toquei no seu ombro:
- Como vai?
Olhou para mim e, no fundo de seus olhos a criança vi a criança da foto. Ele disse diante do meu espanto:
- É meu irmão gêmeo, sabe? – e sorriu.
Eu fiz um amigo, mas prefiro conversar para cá do muro. Ufa!

sábado, 1 de setembro de 2012

Amigos, grato pelos acessos a este blog e pelas leituras deste indigno cronista. Neste sábado posto uma crônica brincalhona que um amigo me contou, ocorrido em sua cidade, a despeito da descrença. Aos interessados que não leram, temos exemplares de As ciladas do Androide, é só contactar-nos pelo e-mail camilo.i@ig.com.br Vamos ao texto:
Galinha preta
“Tomé, alma de morto é uma galinha preta cega” e ele ria, desdenhando da pobre velha com suas velas, orações caseiras e mandingas.
Tomé era descrente de fé – dizia a sogra. Para ele tudo tinha de ser explicadinho por um fenômeno causal.
Ainda caipira de pé pranchado, respirava o determinismo apreendido pelo senso comum.  
Aos domingos ia à casa da sogra almoçar com a família e sentava-se à porta da cozinha entretendo-se com as conversas da velha, enquanto as galinhas ciscavam pelo terreiro.
“Fio, tome tento, fé é que nem mio que se dá pas galinha. Nasce na roça, não da cabeça de ninguém”.  À noitinha as galinhas se recolhiam amiúde, e a velha, depois de conferir todas nos poleiros fechava a portinhola à escuridão dos galináceos. Então ia para cama dormir, como se diz por lá, “com as galinhas”, bem cedo. O genro, filha e netos voltavam a casa deles, vizinhos de cerca.
Dormia cedo e acordava com o primeiro cantar do galo, mas não naquele dia. Na sua passagem a tramela da porta foi aberta com um leve toque do anjo ceifeiro, chamando sua alma às alturas. A velha morreu de uma morte líquida e certa, estava na idade e incomodava. O dia ameaçou chuva, mas conteve-se em luto. O guardamento da defunta foi à noite como manda o costume por aquelas bandas.
Tomé veio com a família e mandou chamar vizinhos, ansiando em aliviar-se dessa obrigação piedosa e incômoda, guardar defuntos! Enquanto as galinhas dormiam ao lado do paiol de milho. Galinha de sítio é dorminhoca. A noite do guardamento era clareada somente pelas quatro velas do caixão e alguns lampiões embaçados para evitar tropeços dentro da casa ao estilo fúnebre. De pouca luz e de penumbras, figuras alongadas e pouco falar e choros e medos escondidos. Cada um que chegava o lamento e o “ela era tão boa...”. Tomé trazia um café e convidava com o “sente, compadre, comadre” e dirigia um olhar tristonho e conformado.
A memória da falecida, seus costumes. O povo ia descontraindo com o café quente e a polenta assada, Tomé deu-se à liberdade de contar algumas anedotas para animar e foi graça recíproca, risadas desafogadas. Todavia, à meia-noite, em meio ao bruxulear das velas e dos lampiões de tênue iluminação, uma coisa caiu pelo desvão da casa bem no colo de Tomé, saltou sobre o caixão da defunta e cacarejava com as asas abertas, causando enorme alvoroço na casa. Galinha acordada àquelas horas! Dentro, só permaneceram a morta jacente e a galinha preta de vigia. O Tomé está correndo até hoje.
Foi lá pelas bandas de Mombuca e pergunte ao Cláudio, se é mentira.
Grato à Tribuna Piracicabana pela publicação.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012


Amigos, agosto tinha fama de ser de cachorro louco. Eu nasci neste mês, mas normal, um pouco...
Espero que gostem dessa ficção, que os amigos da Tribuna Piracicabana deram um espaço hoje e posto aqui também no blog. Vamos cruzar as patinhas e ficar amigos.
Abração
Ele é o cão!
Que sonho, meu Deus! Sonhei que meu cachorro podia falar e andar com duas patas, ereto, pela rua afora, e pior, tomou minha identidade e saiu por aí fazendo dívidas, comprando com meu cartão de crédito. Imaginem só!
Até que estava me afeiçoando a este cachorro, mas não sabia de suas personalidades múltiplas. Desculpem-me os protetores de animais, mas ele extrapolou e vai voltar para a coleira por um bom tempo. O problema é que me escapa sempre e, ah, no pesadelo, ele me laçava e punha-me dentro da casinha, com ração e água. Já pensaram! Uma casinha onde cabe um poodle somente. De fora, dava uns latidinhos para mim e depois de me aprisionar saiu com minha esposa, ela sem perceber que não era eu, se percebesse... ou será que percebia? Bem, estava ficando com as pulgas imaginárias atrás da orelha e somente via o tchauzinho dela, fazendo caretas, como se eu fosse um imbecil e lá me deixava dentro da casinha. De identidades cruzadas, ele era eu e eu era um cachorro.
De fora, minguando um alimento humano e um carinho, a ouvia falar que ele “mudara para melhor, estava até mais bonito” – ele, um cachorrinho que livrei da corrocinha, roubou o meu casamento. Quando chegar a segunda-feira queria ver como ia se dar no trabalho, queria ver; mas chegando o dia, tomou seu banho, cantando as minhas canções prediletas sob o chuveiro quente e usando meu sabonete, saiu sem se barbear. Ah, se ela o visse! Mas ela gostou do new look dele, com aquele rosto pontilhado de descuido, e ainda passou a mão pela sua cabeça, num último carinho de portão. Safados!
Eu assistia a tudo pela fresta, quase privado de ver e ouvindo os resmungos e nhenhenhém deles e depois ouvi um estampido de beijo e ele a deixou, vi o aceno pela sombra. Ia esperar no almoço, pois chegando ao trabalho e não sabendo o meu metiê como ia se safar? Safou-se o malandro, tirou férias logo a seguir. As minhas férias que não tirava há anos por medo do chefe. Só restou-me a zanga e a solidão do meu quintal e a fresta de sol da manhã, onde me esquentava. As ruas conhecia de barulho e conversas do ponto de ônibus perto e num dia o ronco do meu carro que saiu e foi distante por semanas, deixando-me um resto de ração velha e um cocho de água, onde comia e dormia até quem sabe Deus. Matava o tempo afugentando passarinhos e, à noite, fugindo de morcegos; mas de domingo os rojões me afligiam os tímpanos, se alguém fizesse gol. Que idiotice.
Foi um pesadelo horrível, acordei com a impressão horrível e tinha medo de olhar no espelho, dei voltas na casa vazia e olhei o quintal por onde penara tanto. Comprei ração nova e uma casinha mais aconchegante e eles vieram do veterinário, ele tosado e alegre. Ele é o cão!
Obs:
Comentem aqui ou para os que quiserem meu e-mail é camilo.i@ig.com.br

sábado, 18 de agosto de 2012

Herói sem caráter  leia e comente
Mário de Andrade quando diz que Macunaíma é um herói brasileiro sem nenhum caráter, não quer dizer que este não tenha princípios; mas que “nada” o caracteriza. Não havia uma cultura formada no Brasil, por isso a antropofagia do movimento modernista em comer cultura de fora e regurgitar aqui nestes trópicos. Eu conto assim. No éden o criador lançou a pergunta...
- Por que te escondes?
- Porque eu tava pelado, ué.
- Quem disse que estáveis nus, acaso comestes do fruto proibido.
Não, disse Macunaíma e inventou uma longa volta até entregar vários culpados e por fim:
- É, se o Senhor qué sabê, comemo sim. Era tão apetitoso, ara!
- Estás expulso e ganharás a vida com o suor de seu rosto.
Macunaíma pôs se a esgoelar de boca cheia, comendo.
- Ai que preguiça, mas com que roupa eu vô?
O anjo guardião tomou uma camiseta de um político e lhe vestiu. Saiu e no portal um anjo torto revelou um plano de retornar àquela moleza. Tem coisas que nem o criador adivinha - pode?
 Triste, o nosso herói foi meditar perto de uma cachoeira, como orientara o anjo. Este anjo decaído lhe tentou e pelo paraíso queria que o acompanhasse com a camiseta no peito. Somente isso...
Daí uma voz veio como um trovão:
- Por que está apoiando o demo.
Não sabia que a única camiseta que usava de dia e de noite era coisa do demo. Era. E teria que arranjar outra camisa para enxugar o suor de seu rosto. Nessas horas o nosso herói punha-se a esgoelar: Mas que preguiça!
Foi a um templo próximo e, recebido, teve de usar uma túnica para batizar-se e professar uma nova fé em pessoas que não conhecia. Era um desgarrado e alguém o agarrou. Não aguentou muito pensar do jeito deles e novamente deitarem-lhe fora. Macunaíma é uma metamorfose ambulante (desculpe-me, Raul, tô usando essa tá).
Assim, nosso herói foi pular carnaval e inverter a ordem. Sem roupa, pula mesmo pelado, mas na sua ginga e se achar vinte mil reais no chão vai devolver, é assim, não tem nenhum caráter, nem o da desonestidade professa.
Não temos uma cultura de elite. Fim.

sábado, 11 de agosto de 2012

Amigos, para os dias dos pais publico reflexões que tomei da vivência com o meu. Abç.
Blogueiro filho
       Uma vida por minha vida (meu velho)
      Um prato de sopa fumegante. A noite vai cobrindo o mundo. Á diante o prato de um líquido engrossado de aromas, o pão lhe ajuda a juntar o que sobeja, o prato será limpo e o apetite satisfeito como na infância. Olhos miúdos e negros em trabalho de escuta, bem vivos, que observa o falatório – mas, que o mundo se move, se move. Suas mãos tremem e o talher bate no prato, cansado de chamar, de tilintar. A comida vem à boca que suga o caldo com dificuldade. O corpo está cansado, trêmulo e afinado com a vida diária. Não reclama de nada. Não se queixa de seus males constantes. Treme, por vezes, freneticamente. As migalhas da vida lhe caem na roupa, a rebate sem se importar. As roupas nem sempre combinam e está perfeito ao seu figurino austero. Não escolheu a grandeza, mas o simples e o comum.
            A idade avançada lhe parece à vista e não a esconde. Os talheres lhe são como os cinzéis do Aleijadinho, por vezes, tem de se manobrar todo para que um bocado de comida venha à boca e não quer ajuda. Derruba parcialmente, pegando a colher pelo viés errado, a mão não manobra bem. O guardanapo lhe socorre por uma mão auxiliar e pródiga - a esquerda.
            Os remédios é uma boa soma de pílulas, de drágeas e de goles amargos, a desgosto das papilas. Os toma religiosamente. Todo o dia. A mesma coisa? Não. Por vezes, derruba embaixo da mesa. Desta feita, faz o bichano ir para o armário e deixar a cozinha para o seu desjejum e o gato não lhe roubou o remédio, preferiu o sono a azedar seu paladar. As drágeas caídas correm como tampas de lata de leite em pó, escorregam por baixo de algum móvel esquivo, bamboleiam e caem deitadas num movimento circular a pranchar no chão, que a ele parece ouvir-lhe o ruído. Mas, pelo preço de cada uma, se arrisca entre as cadeiras a reviver os brinquedos da infância e pega o dito remédio, vitorioso. A danadinha vai pro papo. Joga novamente para cima e a abocanha no ar, desta vez. Dá-se a chance de errar e brinca com a vida, a despeito da lógica de Murphy. 
            O andar é vagaroso, não tem pressa mesmo. A vida lhe deu a paciência, a serenidade anciã. Os meus medos infantis se foram em suas rugas. Escolhe seus sonhos e seus desejos mais harmoniosos, mais miraculosos, que permanecem em segredo. Ninguém quer ouvir. Já velho pode dar-se ao luxo de falar bobagem e não ser ouvido, a função “gagá” lhe dá imunidade aos seus atos e aos seus sonhos. Pode fazer tudo que fora proibido pela sociedade, pela educação dos mais “corretos”, até o padre o passa adiante no confessionário, agora somente Deus o aprecia devidamente e divinamente. As culpas já prescreveram da costa deste adão. Aposentou os sapatos pelos pés nus, o correr pelo caminhar e o tempo pela vida.
             Homenagem ao meu pai Alessio Quartarollo, paciente de mal de Parkinson.

sábado, 4 de agosto de 2012

Amigos e leitores de crônicas, desculpe-me pelos rebuscamentos, é que era madrugada mesmo e não tive tempo de emendar sinônimos mais usuais, recomendo um simples dicionário digital  e já resolve, se o caso.
Como trata-se de uma reflexão que tive, podem perguntar, criticar, o texto que faço é para isso.
Abç
O blogueiro

Madrugada

Levanta célebres sonhos e presságios e esconde meus piados no negrume incipiente do dia, dos meus pensamentos disformes. Uma voz vem como a um profeta: escreve, escreve... criando ordem no caos. Tépidas eiras sem vento e uma serração cai sobre as bananeiras em chão fofo e úmidas em cheiro. Como uma corsa a palavra rumoreja nas nuvens fugidias da branquidão silenciosa. Ciosa e materna a terra esconde o horizonte para o café da aurora.
Na terna escuridão sempiterna diuturna solidão, apavora, esmaga a visão. Olha, escreve. Um resmungo de velho, um vagido de nascido, um suspiro de lactante, dorme o velho, nasce o homem. A natureza toda geme no lago que reflete. Disforme é o visível, real o invisível. Da existência vã precede o abstrato, as palavras aí estão, escreve.
Um cisco vem rodando do longe rodamoinho celeste, uma estrela de Van Gogh cai do cipreste, as horas vão emergir o dia. Escreve, escreve. Que coisa é o dia? Que se passou na noite? Quem rega as flores da enseada, quem alimenta os lobos? Dorme no sono canino o homem que sonha um mundo que não é seu.
Não temas o que não vê, nem o que o negrume da noite esconde, uma dor resume o que jacta e arvora-se em medo o que desconhece, mas em silêncio a noite tece e o homem, criança, adormece. O mal de outrora, de turbada dissidia, desvanece. No pincel que apaga, lá fora à flor do dia que o relento afaga. Fica onde te colocou a vida, onde está sua essência. Não madrugue o dia, não esconda a noite, não delapide as tardes, que seus dias são preciosos, embora vãos no entremeio da sorte. Mesmo sem norte, simplesmente vive e não tema a morte. Talvez alguém toque o sino, amanheceu, amanheceu; mas outros dormem o sono da vida ou o sono da morte. Simplesmente vive, o escrever é um recorte!