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O blog atém-se às questões humanas. Dispensa extremismos ou patrulhas. Que brilhe a sua luz. Bem-vindo e bem-vinda!

sábado, 14 de abril de 2012

Amigos, Piracicaba tem uma escola dramática de excelentes diretores e atores, muitos destes que começaram na encenação da Paixão aqui no Engenho Central tombado e com teatro recém inaugurado; todavia a apresentação monumental reúne grande número de figurantes, atores, mais de mil, ao ar livre, no relento da vida do povo e da sorte de estio ou da chuvada de março. Destaco o diretor Carlos ABC, com um toque doce e um ator carregando cesto de pães e dirigindo e representando por gostar, dele a dramática e o belo em seus figurinos apreciadíssimos. O diretor mais jovem, Joãozinho Scarpa, tem uma acuidade genial de ver e sacar coisas além do plano e consegue o efeito desejado, como na cena das tentações com vários dublês de Cristo e satanás, dando o efeito crescente, ostroboscópico, repetindo a cena em vários locais e com ênfase, tanto que, eu que não fui ver devido a problemas de saúde, fui abordado sobre esta cena e a revolta contra o diretor sobre as tentações pela qual Cristo passou. Ora, o culpado não é o diretor, claro, a não ser pela genealidade de dramatizar as tentações pela qual Cristo e nós passamos, personaficando o mal na figura do diabo, o divisor, do grego diabolo - literalmente: o que divide, contrapondo a símbolo, o que une.
A túnica do diabo
Sinto-me o próprio cego curado por Jesus, guardadas as devidas proporções. Não fui ver a Paixão, devido um pós-cirurgia que me entrevou em casa; mas aí surgiram alguns comentários incrédulos pelo caminho do trabalho pós semana santa. Jesus ficou sob o poder de satanás, uma, duas, três vezes, escreva no jornal, isso é uma blasfêmia! Ele cobriu Jesus com a túnica preta. Tentei arguir que representavam as tentações somente. Escrever como? Sobre o que não pude ver? Mas aí tem coisa, lembrou-me Macunaíma nascendo e pensei nas provocações às origens das religiões. Pelo visto esta cena afetou e marcou o espetáculo dos que amam a Jesus, não posso fazer julgamento de valor de quem quer que seja, todavia parece que o espetáculo foi marcante. Uma já lascou que inda bem que a chuva começou e interrompeu o espetáculo, não suportava mais aquela cena. Contrariar seria arriscar-me a levar uma vassourada nas primeiras horas do dia e de camisa branca. Jesuis é Jesuis e nem meu santo protetor ia me defender. Não deu para fugir desses leitores generosos afinados com alguns textos que acerto em escrever. Deste aqui (se passar pelo editor) tenho dúvidas quanto a estas leitoras – mas faz parte, vou encaminhar este também. Nessa hora eu já era a própria pena de São João evangelista, sob um influxo sacrossanto de um apocalipse mal explicado. Prefiro a oposição entre Luz e Trevas do evangelho Joanino. Chuva é normal em março, lembram-se do outro texto de 2008, Águas de março, então? Não, foi o homem lá de cima, não aguentou ver Jesus humilhado daquele jeito! Então foi...
Fora isso, meus olhos de cego me levam ao cenário, à praça de guerra vazia, de outros eventos que anonimamente presenciei. O engenho, de tantas memórias e histórias inventadas ou não, quantas paixões viu-se neste espaço limitado pelas margens frescas de um rio soberano, que nomeia a cidade e dá vida e exuberância a quem dali se apega, o caipira de margem.
Impossível crer que Jesus fosse tentado nesse lugar. Sim num deserto, na escuridão da desesperança, mas não aí, na nossa casa. Convalescente, senti-me como debaixo da túnica preta de Satanás, entrevado, ou como nos albores da ressurreição e cura do meu espírito. Se estava sob a túnica preta da tentação, Jesus estava comigo. Afinal quem ia testemunhar que estava debaixo da túnica, rsrsrsr.
Brincadeiras à parte, a fé nos torna mais humanos e fortes, depois que lerem este texto no jornal vou ter de mudar o itinerário para não apanhar. Talvez concorde com a vovó italiana que me abordou assim:
- Fazer Paixão em marçó, devia fajê em maia, Junia, eh... chove memo.
Nota> Aos interessados por ficção científica e humor, temos os exemplares de As ciladas do Androide, a quinze reais o preço de capa. Contate-nos.
Boa semana!

sábado, 7 de abril de 2012

Este texto sai publicado em 28-03-2008, há quatro anos, na Tribuna Piracicabana. Eu tinha saído do engenho central, sob intensa chuva, com minha esposa, meus pais e por estradas escusas tendo em vista a dificuldade de saída, chovia muito àquela hora. Molhei-me mesmo no carro e sob guarda-chuva insuficiente. Chegando a casa, tomei banho, troquei de roupa e fiz um dos textos mais rápidos, quase que na aflição e o título ? Águas de março. Tom Jobim escreveu a letra e música numa pescaria em março também.
Nesse ano de encenação do grupo Guarantã o diretor era o Carlos ABC e quis pôr animais nas cenas da manjedoura e os cavalos para os legionários romanos. Fez parte como figurante e sua paixão é o teatro mesmo. Lembro-me ainda das primeiras cenas, antes do embargo da chuva, cena do batizado de Jesus, do outro lado, outra margem do rio, num foco de luz longo, num golpe de mestre da dramaturgia, aproveitou o cenário natural. Vejam abaixo o meu texto.
Águas de março (Publicado em 28/03/08)
Semana santa e os céus ainda mandavam água. Como todo ano a paixão de Cristo é apresentada na cidade, com figurantes e atores apaixonados pela arte do teatro. A peça conta com o trabalho de formiga e do gênio do diretor, no antigo engenho entre as ruínas dos galpões e fornos, onde monta um cenário ao ar livre. Em várias cenas, junto à manjedoura, como aguadeiro nas Bodas de Cana, à Hitchicok, o diretor, ator, faz emergir as cenas do drama, da trama presente no inconsciente coletivo da Cristandade. Minha esposa, muito sensível, chora nas cenas mais
dramáticas. E eu sempre atento aos detalhes, vejo as cenas se passarem aqui e acolá – olha lá, olha lá, o personagem histórico e contemporâneo! Jesus pode ser o seu próprio vizinho!
Meus dois pais, maiores de setenta e oitenta, católicos, assistiam fiéis, pela primeira vez, aquelas cenas tão tocantes e de tão grande simbologia. A doçura do burrinho carregando Maria e o menino Jesus em fuga, contrastando com os cavalos a galope na matança dos inocentes. Que força dramática! Aqueles soldados romanos representando o império da impiedade com a força dos cavalos em assalto sobre a multidão desarmada, atentando contra a vida humana. A tropa de choque enfileirada para impedir e manter o poder de Herodes que discute com o rebelde João Batista.
Mas quando João profere a fala de que ele batizará com água. De fato, a chuva aumenta de tal forma que os expectadores descem da arquibancada já úmidos. Interrompe-se o espetáculo ao ar
livre. O povo quer descer a arquibancada e sair. Olho para meus pais, sentados, protegidos com uma sombrinha fina. Minha mãe que tem medo de chuva, começa com as jaculatórias como “Jesus, Maria, José!” e “Nossa Senhora!” a cada relâmpago. Chego perto e tento protegê-los de algum acidente, pela possível pressa dos transeuntes umedecidos. Minha mãe vira-se para mim e diz que “São Pedro acabou com a paixão de Cristo”. Meu pai, parkinsoniano, treme mais quando lhe afeta alguma emoção ou preocupação e tremia muito. Olhei para o cenário e para os atores que se misturavam ao povo. Devaneei-me. Avancei a arena. Montei um cavalo, derrubando um soldado romano, fui até Pilatos e lhe tomei a capa, voltei a galope e cobri meu pai trêmulo. Jesus Cristo protestou e eu lhe tomei também a túnica para cobrir minha mãe. Enquanto isso minha esposa com uma sombrinha cobria o burrinho da cena com José e Maria. Ela adora a burros! O
burro começou a segui-la pela arena molhada até o galpão coberto – era um animal fácil de contracenar, manso, dócil, só faltava falar, pois não conseguia decorar o texto. Naquele alvoroço de chuva forte e ao ver meu pai tremendo – achava que era de frio - o diabo se achegou, tentou carregar meu pai, dizendo: “calma, calma, eu levo ele, ele precisa se aquecer!”. Minha mãe quis impedir, mas Jesus a convenceu que era melhor o diabo levar meu pai mesmo, ele era mais
forte. O levou na frente e ela o seguiu. O seguiria até ao inferno. A chuva forte não parava.
Era emocionante. Intrometi-me entre os atores e cenários que tanto mexeram comigo. Nunca tivera coragem de ser ator, mas agora o cenário estava ali, sem diretor. Vi Jesus cara a cara! Quando cheguei perto e a chuva aumentou os soldados correram. Covardes! Levei Jesus a salvo para um lugar seguro onde não o encontrariam. Deixei-o protegido da chuva no palácio de Herodes, junto com Judas Escariotes. Voltei para minha esposa e meus pais já aquecidos num galpão ao lado de Pôncio Pilatos. O tribuno discorria sobre o discurso não feito, e dizia aos presentes, que diante daquela chuva toda “lavava as mãos”; mas se quisessem, poderiam crucificar Jesus no dia seguinte. Ao sair com meus velhinhos e esposa encontrei com o bom ladrão, um fiscal do imposto de renda, que me deu carona até o carro. Montei no coche, puxei as rédeas e fomos embora. Atchin!
Se rio, também homenageio. No barulho da chuva e trovões de diálogos não-verbais e inaudíveis, os soldados e reis, solidários, desfizeram-se de seus mantos e túnicas para proteger meu pai, que apesar de bem agasalhado ainda tremia. Era o mal de parkinson. Quem sabe se a paixão de Cristo
tivesse ocorrido no Brasil, não seria diferente!? Não faltou agasalho, cuidados e o pão de Cristo para aquecer o coração de um velho desconhecido. “Tudo que fizerdes ao menor dos meus, a mim o fareis”, disse-o Jesus. Eu sou grato.
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terça-feira, 27 de março de 2012

Perdoem-me a redundância, o texto da semana anterior foi sobre relógio, mas acho que é uma síndrome minha sobre o meu tempo e minha vida. Meus textos têm sido recorrentes a entes de minha infância e notadamente a meu pai, que se encontra acamado e com grave enfermidade há mais de um ano, sem possibilidade de recuperação, sem condições físicas de virar-se na cama, comer, beber ou urinar por conta própria. O texto que posto fala de um tempo melhor para mim. Meus textos eu trabalho os resgates, "creio que é isso que vou falar ao psicólogo".(brincadeira, ao menos uma para descontrair)
Engrenagens do sono
Em meus tenros anos, à noite me assombrava, medos inexplicáveis, sombras que emergiam detrás da lamparina, a noite escura cobria-se de um barulho desconhecido o mundo fora de casa em meio a alguns latidos e uma bagunça de um mundo sem Sol. Quem me acudia era meu pai pondo-me a par da normalidade do mundo e explicava tudo e por encanto as coisas iam se acalmando e adormecia, enquanto ele sumia da porta de observação. Por vezes, via minha mãe olhar se havia alguém a descoberto na cama.
A madrugada vinha e após a meia-noite a natureza se acalmava, meus olhos se abriam por vezes e nada via, minha família estava dormindo, eles ressonavam; somente um barulho cadenciado das engrenagens do relógio na parede deste meu mundo paralelo. Com minha visão imaginária entrava dentro deste relógio e via todas as suas engrenagens virando para um lado e para outro, no tic-tac ininterruptos. Com os olhos acostumados à escuridão podia ver e entrever pelos vidros da janela, conhecia os traçados das estrelas, que na madrugada percebo nítidas, altas, vivas, e no
novo olhar para a casa o relógio de parede falando comigo. Eu falava até com relógios e diziam sim-sim-sim. Meu tempo fluía absorto e sabendo que tudo estava bem meus olhos cerravam num sono maroto, sonhando absurdos e acordava em outro mundo. Meu pai já fora para o mercado com seus mamões para vender e o leite estava na jarra ao lado do chá. As vacas mugiam e o sol varava as cercas, era dia e na parede o relógio, igualzinho, redondo, que não se ouvia, silencioso, mas trabalhava, porque dentro, as engrenagens que eu “vira”, movimentavam-se continuamente.
Cresci e descobri muitas outras engrenagens, muitos outros relógios, de formas, modelos, cores e
origens. Muitos relógios, engrenagens e os que não dizem nada, os silenciosos. Hoje em dia, são embutidos em caixinhas quadradas metálicas e as pessoas andam com eles na orelha e falam com ele como autômatos. Hoje vejo que meu antigo quarto era somente uma parede comum com um prego para o relógio e outro para o São Jorge matando dragão, perto do meu berço. Começo a ficar com medo outra vez, aliás, onde está o relógio que me embalava? Não se preocupem,
coloquei-o no meu computador e o São Jorge comprei outro na lojinha do chinês e isso já me fez dormir. Ah, apaguem a luz.
As ciladas do pode ser adquirido pelo e-mail camilo.i@ig.com.br e o valor de capa é de 15,00, que vc deposita após receber via carta registrada em seu endereço. Em caso de dúvida, solicite maiores informações pelo e-mail.

sábado, 24 de março de 2012

Cada chapéu uma cabeça

Amigos, fiz algumas modificações na estrutura do blog, espero que tenham gostado. É um blog de leitura e sem outro atrativo maior como vídeo ou imagem surpreendente. Simples.
blogueiro.
Cada chapéu uma cabeça
Depois de muito me esgueirar pelas beiras das casas, andar como lagarto no deserto, até à árvore próxima. Sim, rendi-me ao velho utilitário das calvas da família, o ilustre chapéu. Meu avô não o tirava da cabeça e usava até à noite – o sereno fazia-lhe mal, dizia. Ver o nono sem chapéu, via somente no ambiente familiar,
à mesa, na sala, nas missas ou para acompanhar algum enterro. De tal modo o chapéu estava ligado à cabeça dele, que brincar com o chapéu do novo dava um ar de liberdade e de intimidade familiar – cuidado com o chapéu do nono, era a advertência, mas ele ria sem saber falar não (inda vejo o nono careca). Papai foi diferente. Era um usuário moderno, a seu modo. Usava-o torto num ar de artista, de homem elegante, quando o via no cabide eu ficava testando para ver em que lado o chapéu do pai ficava inclinado na cabeça – até hoje não sei, afinal isso não é para criança mexer, levava já. Ah, os chapéus tinham lugar
certo para se o deixar, um cabide de madeira envernizada junto com outros utensílios importantes como guarda-chuvas ou capas – e acrescento: alto pra burro. Não que não me desse atenção, não me dava era o chapéu. Agora eu passei a usá-lo nas horas de sol mais ardido e foi tão fácil, entra na cabeça como uma ideia, a de se proteger. É algo que não esqueço, está na
cabeça, talvez a única coisa que não me esqueça. Não me lembro do lado da inclinação da aba do chapéu que papai usava, e tinha aquele olhar de perfil de aonde vou. Se pegasse o tal no cabide era para sair a algum lugar. Aonde o senhor vai, pai? A gente ia seguindo ele de chapéu até a área de fora, subia na carroça e sumia na estrada. Quando chegávamos a casa olhávamos o cabide e era bom, porque às vezes tinha mais um chapéu, de veludo, com fundo azul, de passeio – o nono chegou! O velho já ia fazendo os agrados, trazia algumas balas, dava umas voltas no quintal e depois deixava pegar seu chapéu e ficar virando na mão, feito volante de carro ou sei lá o quê. Hoje, ao menos, não tenho de escrever em papel de pão ou mortadela e nem esconder minha memória de outras crianças. O meu chapéu de 1,99 lembrou-me estes e na vitrine parece que vejo meus antepassados na minha própria imagem, somente uma coisa me escapou. Onde vou pendurar minhas histórias, inda bem que são aceitas – quem viu um cabide velho?

sábado, 17 de março de 2012

O relógio

Amigos, grato pelos acessos ao blog. Espero que apreciem esta crônica abaixo. Que saudade do tio L.T, de saudosa memória e breve passamento! Grato ao Clube dos escritores na pessoa de Carlos Moraes Jr. pela publicação na revista virtual do clube.
O relógio
O tio L.T, suas iniciais, mas o chamo de Lete, colecionava coisas e histórias. Começava e aí vinha o inventário de memórias e amontoados do porão. Tartamudeava por minutos vazios, de tênues porquês. Vi reluzir um metal em sua cintura, um instrumento de precisão, aço puro, engrenagens, molas sem fadiga, que marcava o eterno ciclo do tempo. Então levantou pelas correntes douradas e finas o estojo arredondado das horas precisas. Um autêntico relógio de marca.
Na infância eu quebrava brinquedos e ainda não realizara o desejo de ver “com as mãos” um relógio por dentro. Aquelas engrenagens virando outras de vários formatos e tamanhos, num
ajuste perfeito. Meu pai jamais dera um em minha mão, mas mostrava o da parede e me acalmava com aquele brinquedo de adultos chamado de “téi-téi”, não sabia ainda que “não era uma espécie de grilo”. Lembro-me de que o tio ficava virando um dispositivo no relógio, pondo-o na orelha vez ou outra. Era isso que fazia à noite antes de dormir. Olhei na sua mão e rapidamente guardou o relógio dentro de um bolso próprio na calça, antes de verificar as horas e de que eu fizesse perguntas. Então contou de um relógio carrilhão que veio no navio, de pêndulos dourados. Não vi nenhum dentre os guardados no porão. Fora roubado, disse entristecido. O ladrão noturno levou a raridade. Somente o relógio fora levado, apesar de enorme. Caiu-lhe uma lágrima que se conteve num sumidouro de emoções. Não era de chorar e disfarçava perto de crianças. Num tempo sem automóveis, não o carregariam por muito longe; porém ninguém viu o enorme relógio por vinte anos. Vinte anos! As casas e toda região vasculhadas pela polícia em busca do raro objeto, de valor sentimental, de cuja caixa cantavam pássaros mecânicos, diferentes a cada hora. E...? Fora deixado no mato pelo ladrão. Vinte anos no relento. Sob chuva e sol. No mato, ali perto e ninguém o viu camuflado na vegetação, numa forquilha de pau-brasil, emJustificarperfeito estado de uso e conservação. O relógio estava intacto, a madeira não se estragara, ficou mais forte e o relógio marcava horas nesses vinte anos, inclusive as de horário de verão. Como? Com o balouçar do vento, acionava o pêndulo que movimentava as engrenagens do relógio, marcava as horas... Pobre tio, como o relógio roubado são os sonhos, e este texto como a miniatura das horas, que vou acertando à noite...

sábado, 10 de março de 2012

Força feminina

Amigos, grato pelos acessos a este blog de crônicas. Espero que gostem e comentem. Posto hoje um texto sobre a mulher, já que dia 08 foi comemoração do seu dia e que sejam todos os dias na compreensão deste espaço que temos de aprender a compartilhar e aprender o feminino em nossas vidas.
O blogueiro
Força feminina
Quem vai usar os sutiãs que as feministas jogaram e quem vai usar o primeiro sutiã? A pré-história define-se por idades, a das pedras, da pedra lascada, da pedra polida e atirem-nas, se for
“peróla”. Na verdade o protesto chamado queima dos sutiãs (Bra-burning), sem queima real, contudo, foi um protesto de cerca de quatrocentas ativistas do Women’s Liberation Movement, em 07 de setembro de 1968, em Atlantic City, contra a visão arbitrária de beleza dos apelos comerciais e para eleger neste dia a mais bonitinha. Elas jogaram ao chão, sapatos de salto alto, sutiãs, maquiagens, revistas, espartilhos, cintos e outros instrumentos que mais torturavam o corpo da mulher, para o sacrifício de uma “beleza” meramente visual e atrativo aos olhos masculinos. Qual é a beleza feminina? Ninguém sabe e não são as formas em apertos de cintos ou sutiã que a mídia emprega, muitas coisas mais compõem este substantivo feminino, derivativo de belo ou de bela. Naqueles
idos de 1968 os homens ainda não entendiam a alma feminina. Ainda hoje se aprende a viver fora da caverna, com luzes e chão limpo, os ursos ou leões já foram domados e os homens matam baratas nos cantos e coabitam com algumas lagartixas comedoras de inseto. Não dá para generalizar e o mais difícil é o se entenderem um ao outro, por isso perdoem-me e vamos às outras considerações. Notem que uso humano e não homem para espécie humana, para evitar o machismo da língua, em que sempre prevalece o masculino – mas não joguem os artigos
masculinos fora, ainda precisamos deles. O homem-pai continua onde está, “trabalhoso”, atinado aos esportes e aos programas com amigos, mesmo não sendo arrimo de família – antes, era essa a ideia, de que era provedor. Hoje, basta pôr o sêmen e ter sorte no despiste a alguém que o faça reconhecer como sua cria e cobrar cuidados; em casa, pode ter uma fêmea que resolva, costurando para fora, dirigindo ônibus, trabalhando numa empresa e, pasmem, cuidando da casa. A mulher assume a casa, seus espaços, o homem, sob o descuido da cerveja, cigarros e iates que não tem (de comercial de TV), tenta a loteria, mas perde espaços vitais. A mulher, com as crises contemporâneas, já superou as fases da bela adormecida, da princesa encantada, da gata borralheira e está num caminho mais espiritualizado, no encontro consigo mesma. Se necessário rasga papéis, joga sapatos e queima os sutiãs, mesmo aqueles que revelaram as primícias de sua fase mulher. O homem, de modo geral, têm dificuldades na busca do lar com a companheira e quando começa a vivenciá-lo recebe os apelidos de “maridão” das amigas dela ou de “efeminado” pelos amigos dele. Todavia, inda mais hoje, não importa apelidos (é um teste ao diferente) e vale sim ser feliz onde se vive, se não, com apelidos ou sem eles, vai ter de reciclar...

sábado, 3 de março de 2012

Amigos, eu vos apresento o Golem, um ser mitomano. Não se assustem com qualquer semelhança com o nosso Androide.
Golem
Num dos capítulos de O livro dos seres imaginários de Jorge Luís Borges o apaixonante velhinho fala do Golem. Borges usava bengalas devido à visão que foi se debilitando com a velhice, mas não tinha o google, yahoo, como nós (que dá a impressão que conhecemos “trocentas” obras), a pesquisa dele era na raça, nos livros poeirentos e tinha que ir pelo fascínio – o qual tornou-nos um fascinante contribuinte da literatura e de conhecimento este argentino. Um humilde letrado, de boa prosa e de percepção etimológica. Famosos seus ensaios publicados no livro acima referido, relato trechos saborosos dos mitos. O golem é um ser criado de massa amorfa e Borges cita as recorrências dele em várias obras antigas. Ora o sonho humano perpassa gerações, assim como os sonhos de Borges falecido, e adquire novas roupagens. O homem é sempre o mesmo em essência, não evolui conforme quer a tecnologia, mas se mantém como tal, desconhecido a si mesmo. O golem
foi criado por combinações de letras e, literalmente, é matéria sem forma ou sem vida. Um autor austríaco citado por Borges, Gustav Meyrink, escreve que um rabino construiu um homem artificial – o golem – este para ter vida vegetativa e cumprir obrigações na sinagoga como tanger as sinetas; mas este golem entrou num frenesi atacando os vizinhos todos. O rabino o desativou, retirando as inscrições mágicas como um selo que o animava e ficou somente o barro que ainda hoje se vê na sinagoga de Praga, conforme o autor austríaco. O segredo de se construir um golem foi retomada por Eleazar de Worms que conservara a fórmula para tal empresa. Borges diz que os pormenores abarcam vinte e três colunas e exigem conhecimento dos “alfabetos das duzentas e vinte e uma portas” que é preciso repetir sobre cada órgão do golem. Na testa a palavra emet que significa VERDADE, אמת, em hebraico; para se destruí-lo é necessário apagar a primeira letra e, que, met significa morto. Creio que assim nascem as ideologias, antes práticas reais, depois uma doutrina ou leis gerais – ideologia. A prática talvez seja este E ou o tchan da coisa. Ou seja, neste gancho de Borges, que nos remete a muitos outros, o golem é um homem programado, com letras, bit, bits, chips, com programas executáveis e sub-rotinas. Se Borges estivesse entre nós hoje, na era do computador, talvez fizesse algumas analogias em relação ao nosso androide, que é vivo ou morto? Todavia, não há robô, golem ou substituto para o ser humano, nem haverá – essas criações fantásticas ou mesmo técnicas são projeções de necessidades físicas e espirituais da pessoa humana, como demonstra o filme ganhador do Oscar, A invenção de Hugo Cabret, nos quesitos foto e direção de arte.
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Temos ainda um texto de análise sobre o filme A invenção de Hugo Cabret, mas ainda não foi publicado pelos jornais da cidade - após lançaremos neste blog. abç
¨*)O nosso livro As ciladas do está à venda comigo autor, aqui escrevente, e pelo preço de capa de R$15,oo. Se quiser ler um conto de ficção científica bem elaborado, requisite-o que eu mando por correio num endereço que me fornecer e após deposita-me, se achar que vale a pena. A maioria deposita, rsrsrsr.