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O blog atém-se às questões humanas. Dispensa extremismos ou patrulhas. Que brilhe a sua luz. Bem-vindo e bem-vinda!

sexta-feira, 23 de julho de 2010









Divulgação
"O efeito espacial começou a afetá-lo cada vez que passava por uma crise existencial e de depressão, a metamorfose vinha onde estivesse, em casa, no trabalho, na rua, no porão, na despensa comendo queijos."

O autor blogueiro


"Qualquer semelhança entre homem e rato, é mera coincidência." - (frase atribuída a um rato)

Se se interessar, você pode adquirir por 13,90 ou facilitar em vários pagamentos ou data, pelo e-mail camilo.i@ig.com.br.
Se você morar fora de Piracicaba-SP, enviaremos por envelope e o valor pode retornar também por envelope, na confiança, não se preocupe. Em primeiro lugar, queremos a divulgação da obra.

Meninos, tênis e celulares


É você, câmbio – o radioamador tentava falar com o filho. Não perdia o jargão do seu passatempo. O dispositivo em baixo tom vibrava no bolso a musiquinha preferida do pai, mas o filho... bem, o filho estava defronte a uma loja de calçados, embevecido diante da vitrine, nem aos carros ouvia, quanto mais o celular do pai.
A loja iluminada em tons amarelos e verde deixava à mostra a mercadoria e os sonhos dos meninos. O tênis novo. Já tinha um velho, que ganhou do tio ou da mãe, não sabia bem – eram tantos que tinha e tantos que jogara. Mas aquele era novo. Pensou sem perder o olhar de vista. Aquela corrida até ali com o skate, era um menino de ação, de corpo sarado, mas tinha de correr, voar, como se tivesse asas nos calcanhares. A sensação de poder, de ultrapassar os limites do tempo-espaço e isso se confundia com o cheiro de um calçado novo de loja. Sentia uma vibração, uma comichão e, ah, o celular. É o pai, “acordou”; mas ao atender já tinha desligado. Esgotara os créditos na tentativa e o menino não atendeu. De quê adiantava esse aparelho?! Desabafou o pai para si mesmo. O filho só o usada para brincar, ver horas, fazer cálculos, tirar fotos, exibir e mal atender, nada mais. O comprara para acompanhar mais a vida do filho, mas não melhorara em nada a relação dos dois.
Aquele tênis ali, um da ponta, com solado luminescente, amortecedor e...,um detalhe, era muito caro. Um salário mínimo. Hum, mas aquela corrida pelo calçamento, ia voar com ele. Se o comprasse não o tiraria mais dos pés. Estava já anoitecendo e ainda não retornara o chamado do celular ao pai – este sem crédito. Um coleguinha da escola passou por ali e olhava também. Reconheceu o pivete de chinelas e espichando os olhos ao “seu” tênis. Decerto aquele tênis não era para pobre e distanciou-se do colega para não pegar mal à sua imagem. O menino pobre olhava e de repente tocou o seu celular, atendeu e passou ao menino rico – é seu pai. Meu pai? Redarguiu o menino rico – ele não ia ligar para você, né, tem meu número.
Enquanto discutiam foram rendidos por dois assaltantes – aí, meu, vai passando os celular rapidinho. O menino pobre passou o seu celular velho. Os ladrões roubavam o tênis do menino rico, fazendo-o descalçar. Nisso o de chinelas saiu num pique, descalço, quase voando e o outro ficou parado, com o tênis na mão ainda. Os ladrões levaram os pisantes, o celular novo e deixaram o celular velho para o menino rico – isso é pra você. Assustado atendeu por fim – Papai?... Do outro lado, um homem fingindo paciência o saudou – Oi, filho, vamos comprar um tênis novo, hoje?
- Não, pai. Preciso caminhar um pouco.
Pegou as chinelas deixadas pelo menino pobre e foi jogar uma pelada na rua.

sábado, 17 de julho de 2010

Divulgação
O efeito espacial começou a afetá-lo cada vez que passava por uma crise existencial e de depressão, a metamorfose vinha onde estivesse, em casa, no trabalho, na rua, no porão, na despensa comendo queijos.
O autor blogueiro

Abaixo texto do blog:
O texto é todo diálogo, com idéias de números e matemática.
Nem sempe lógica. Se não apreciar, deixe seu recado.
O blogueiro
Favas contadas
Na casa 9. Portão principal:
- Olá! Vim te ver.
- Finalmente, achou, heim! Casa nove, fora.
- Caseiro, meu rapaz?
- Síndico, professor! Aposentou?
-Há três anos, dois meses e um dia.
- Toma café?
- Em grãos ou pó?
- Em pó mesmo, é o que tenho.
- Então ponha uma acolher das de chá em meia xícara de água quente, que equivale a trinta grãos úmidos. Ok?
- Com açúcar?
- Dois blocos.
- Mas...e em colheradas.
- ...eu mesmo coloco.
- Tem passeado muito?
- Nem faço conta mais, mas isso é o de menos importância.
- Mas e a família? A quantas anda?
- Dois filhos, três netos e um cachorro vadio.
- Vadio?...
- Nem tanto, carrega umas trezentas pulgas e coça-se muito pelo quintal.
- Mas não tem também genro? Sua filha...
- Ah, esse!? Um zero à esquerda.
- Ah...E a esposa?
- Sempre à minha direita, viu. Com ela dividi, somei, multipliquei e subtrai as agruras da solidão.
- Melhor dois que um.
- Mas não casaste?
-Quase. Um é pouco, dois é bom e três é... Deus conta as lágrimas das mulheres.
- Enganaste a coitada. Já vi.
- Quase uma vez.
- Foi ou não?
- Foi, mas não foi. Foi quase, já disse.
- Ah, menino, no teu colégio não ensinei Derivadas, mas aprendeste outras cousas. Assim, traída te deixou? Hum.
- Traída, não! Quase.
- Mas foi ou não?
- Quase, ela quase me deixou por duas vezes pela mesma razão, então me deixou por inteiro e nessa soma dá zero.
- O que a “outra” fazia?
- Resolvia exercícios de matemática à tarde toda.
- E você, meu rapaz, nunca foi bom nessa disciplina. Mas me conte como foi.
- Nessa e em nenhuma. Eu fazia exercícios com bastão, mais precisamente varria o corredor e...
- Vai, vai, como chegou ao affaire?
- Bão. “Affaireci” um café, uma colher das de chá em meia xícara de água quente, que equivale a trinta grãos úmidos.
- E?
- Açúcar a gosto.
- Não, e, e...
- Ah, prometi um professor para ensiná-la, por isso chamei o senhor.
- Ulalá, malandrão! E a outra, a sua quase noiva onde mora? Quem sabe eu dê uma força para o seu verdadeiro amor também.
- Tá bem. Está na recepção, mas prometa que vai tratá-la bem e o levo lá.
- Claro, meu rapaz, pela honra dos meus filhos... É esta de costas?
- Sim – a moça virou-se:
- Papai!!!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Observação: Cuidado, faça silêncio...se quiser comente ao final, abaixo.
O paciente.
Grato.

O coma

Lembrava-se de alguns piados de aves junto à janela, de luzes de um monitor ligado a si, de uns tubos que o atrapalhavam. Alguns rostos que se achegavam perto do seu e num instante sumiam. Via o teto novamente, não podia mover-se. Alguém o virava e jogava água no corpo quase inerte, ás vezes, sentia até carinho e algum balbucio espremido, choroso; mas o choro solitário ia-se pelo corredor até sumir em alguns passos de uma enfermeira na contramão. A inconsciência vinha outra vez, num apagamento de bêbado, por muitas primaveras floridas. Nos breves momentos de quase consciência compreendia que o mundo continuava a existir sem ele ou apesar dele e os momentos breves eram eternos no limiar da consciência tão mais consciente. Deliciava-se até com aquele aroma da sopa de hospital, que não comia.
Sem pulso e sem relógio, os seus momentos eram contados pelos pequenos ponteiros de um demiurgo anônimo, que lhe ministrava um ritmo interior, quase imperceptível aos mortais. Talvez ele mesmo. Dos seus olhos eram as cores das primaveras de sempre, dentro de si. Da janela, se estivesse desperto, veria o jardim molhado, após a chuva noturna e o céu bem azul e límpido, enquanto os aparelhos com seus impulsos elétricos demarcam a vigília dos humanos. Um sol enorme, medonho de belo, levantava-se no horizonte, soprando as brisas com seu calor. Era o dia.
Por fim se recuperou o paciente do quarto 1984. Vestido e barbeado, sentou-se para o acerto de contas e para agradecer pelo longo atendimento de primeira classe. Era rico. Ia sacar o talão de cheques. Cheques? A memória o traía. Depois de vinte anos não existiam mais cheques, dinheiro, títulos em papéis. Era tudo por impressão digital. Colocava o indicador num orifício de leitura e pronto, iam-se os créditos de um homem. Queria agradecer as enfermeiras então. Enfermeiras?! Não havia mais. Aquelas que pensara ver, em transe de consciência, eram imagens holográficas, para adaptar o paciente ao hospital. Isso o acalmaria, faz parte da recuperação psicológica, informou o gerente.
Olhou em volta, através da janela, e perguntou do jardim, do seu jardim. Jardim? Era imagem holográfica também, disse o gerente, o metro quadrado ali era caríssimo e esse custo foi revertido em equipamentos e leitos. O paciente concluíra que era tudo automatizado mesmo. “...e salvou a sua vida.”, arrematou o gerente. Vida! A esposa onde estava? Ouvira a voz chorosa dela! “Ah, era uma simulação de voz do computador. Fazia parte da evolução psicológica na U.T.I., na escala de coma 5. Ela está casada com o outro. Não ia te esperar, não é mesmo!”, disse ainda o gerente pragmático.
Afundou no sofá e clamou: meu Deus! “A capela fica do outro lado, é holográfica e com aquecimento, quase se pode tocar as imagens nos pedestais”, disse o gerente, frio; ao que o ex-paciente retrucou, “eu quero morrer”. O representante da empresa replicou que morte é mais cara, o cemitério holográfico demanda energia além do suportável a empresa.
Uma luz piscou no monitor do gerente, que solicitou o indicador do paciente no leitor óptico. Sim, ainda havia crédito! Um dispositivo conectado a poltrona-cama injetou-lhe uma droga e voltou ao coma profundo, no quarto virtual onde estivera sempre, com o diagnóstico justificativo: Readaptação ao sistema. Dias mais tarde, veio a falecer de morte natural. Só se vê fora, de alguma forma, o que já está dentro. Venceu o sistema.
Publicado na Tribuna Piracicabana em 30/03/09

sexta-feira, 27 de março de 2009

Uma homenagem ao meu avô materno. Carlos.
Jardinagem

O velho Carlos ali plantava, enxertava, ajeitava os canteiros, e convivia com todos os seres em miniatura do jardim. Estava encurvado pela idade o homem rude e cheirando a suor, a perfume de plantas e à terra. Conhecia os beija-flores quase que pelo nome e pelo vôo e os via por segundos, batendo suas asas invisíveis, inesquecíveis. Os pássaros em confiança voavam rasantes ao velho de cenho branco que se entretinha em meio a tanto verde e cantos de algazarra daquele passaredo. Afoitos surgiam no ar com danças mirabolantes, outros paravam nos galhos das árvores, cantavam nas moitas e até ciscavam no jardim. Seus pensamentos eram limpos, sua cruz era leve e a natureza amiga. Ao chegar a casa à noite, entrava pelo quintal, tirava os sapatos de terra e antes de entrar na civilização, sentava-se, parava a pensar e agradecer ante o sol que se punha. Lá na cozinha, Irene chamava-o, que subisse a escada e saísse de sua soleira amiga, o jantar estava pronto, que viesse comer. Alguns netos entretinham o olhar na cena, vinha com uma rosa e sem jeito oferecia a Irene, tímido. Velho bobo não precisava se preocupar, dizia, mas todos os dias seu vaso de louça estava repleto dos mais variados matizes e perfumes. O sono de Carlos era um canto uníssono com Deus e com a liberdade.
Portava também um velho livro de folhas amareladas pelo tempo, de orações ao Senhor dos Jardins. Orava em pensamento, enquanto trabalhava, pelos jardins e jardineiros do mundo, por todos os jardins e casas, caminhava sobre as dez pedras brancas que ele mesmo colocara e que faziam o responso aos seus pés, em meio à grama. E que todos pudessem ter seu jardim! Amém. Sabia que não iria além do jardim, queria ser uma daquelas árvores, feias e rudes, a gozar da companhia das flores, cascas, poeira, sementes, que a natureza produz em sua vital dinâmica, arrasadora, inexorável e bela. Ao passar pelo jardim é possível ouvir-lhe os passos pelo farfalhar da grama num ruído verde que rompe o tempo, num zap-zap bem manso. Em meio ao jardim há água aos borbotões, o sábio jardineiro plantou uma vegetação de raízes profundas e ávidas de água, enriquecendo o seu solo, túmidas. As rosas perfumadas e lindas, noutro dia são folhas que ele varre amiúde junto aos pés das árvores. Sabia que seu jardim era efêmero como ele e sua glória. Aprendeu a ser humilde e feliz esperando o seu súbito final, a morte.
Foi capinado da terra e caiu como uma árvore, ainda com os ramos estendidos. Seu jardim acolheu o seu corpo, agonizante. Passou de um jardim a outro, o Senhor dos jardins acolheu o seu servo. Fizeram-se presentes todas as rosas, borboletas e uma grande revoada de pássaros de todas as espécies e cores, em seu funeral. No caixão de cedro, como que dormia, espraiava um sorriso em sua face, ainda rosada. Não quis honra, nenhuma pompa, apenas a mortalha, não quis nada, nada levou, foi inteiro para o céu, para o jardim que a muito estava preparado, antes da fundação do Universo. Morreu para este mundo, sem maculá-lo.
E lá, no jardim inominável debaixo do céu, das raízes enlameadas e túrgidas, ainda transparece a vida dadivosa das plantas. Nos fundos de uma casa velha e ruinosa, a qual descascam-se as paredes e os cômodos. Sim, é a umidade do jardim dizem os engenheiros. É preciso derrubar o jardim, cortar a cabeça do Capitão e Dálias ao fogo, caçar os Antúrios, assombrar os Girassóis, corrigir essa tal Maria-sem-vergonha, nem que sejam as Onze-Horas, que se arranquem as Avencas e acabem com essa encrenca, tire-se o Chapéu-de-Couro, regurgite-se o Boldo e que se feche a Boca-de-Leão, nem que seja Flor de São José, nem que a Dona Margarida abra essa ferida, nem que se jogue a Hortênsia, nem que o Cravo apazigúe com a Rosa, nem que renasça os Gerânios, que se derrube o arvoredo e se espante o passaredo, chega de Palmas.
Assim, indefeso, o jardim foi pisado, arrancado e calcado com cimento. Impiedosamente as flores foram jogadas dentro de um saco para o caminhão barulhento do lixo. Puseram um piso belo, importado com desenhos de plantas, muito bonito e limpo, sem necessidade de nenhum jardineiro.
O povo que vive do lixão retirou as plantas do meio dos cacos de vidros, latas, pilhas usadas, restos de comidas e outros detritos “desumanos” – de coleta não seletiva - e plantaram numa área invadida por pássaros, beija-flores, borboletas, gafanhotos, grilos e todos os rejeitados pelo centro urbano. Um novo jardim? Então encontraram também o livro de folhas amareladas, onde se lê nas letras rudes e piedosas de um recém analfabeto: Eis que o Senhor fará novas todas as coisas. Carlos.

segunda-feira, 23 de março de 2009



O feitiço de Áquila

Áquila era um jovem de uma vila do interior do Brasil, filho de imigrantes italianos. Muito supersticioso, não fazia determinadas coisas (ou coisas determinadas): passar sob escada, sair de casa em sexta-feira treze, não ir ao trabalho se um gato preto lhe passasse no caminho de manhã, tomar banho após o almoço, comer manga após beber leite. Outras coisas, Áquila fazia por devoção mesmo, como ir a Aparecida a pé, não comer carne em sexta-feira santa, persignar-se ao passar em frente a cemitérios, templos e santa cruzes. Decalcara em seu carro tanta santaria e frases de proteção – S.Jorge matando o dragão sobre um cavalo branco, medalhinhas mil e outros santos de seu panteon - que quase foi multado devido ao ruído estético e a falta de visão daquele templo volante com farol dianteiro quebrado que parou quase sem combustível ante uma policial feminina que se assustou com aquele S.Jorge cavalgando no escuro com um dragão no volante. Era noite. Ora para onde ia o Áquila? Estava triste e desorientado.
Quando jovem foi ter com uma cartomante. Estava apaixonado, logo de primeira vista. Foi assim, viu a moça de perfil, bela, de nariz aquilino, olhos verdes com gradações em azul, pele em rubor de esquivar olhares. Estava lá a mulher com quem se casaria, teria filhos, etc. Tudo isso em meio minuto. Mas ficou sabendo que era noiva de Julião, um rapaz metido a besta que não a merecia. A cartomante olhou o jovem Áquila com os olhares de quem lê as cartas na cara do cliente e viu nas cartas, um jovem suado, sem aliança nos dedos, cheio de energia contida que se soltava num tique nervoso, jogou as cartas na mesa de toalha vermelha e macia que caíram sem ruído algum nos ouvidos do consulente, visto que o seu cliente não sabia diferenciar um coringa de um valete. Virava as suas cartas, sinuosa, com seus dedos como quem mexe na vida alheia, e dizia coisas sobre ele deitando seus olhos mal pintados sobre as cartas e os movimentos do cliente terminando com hum de indagação ou de não te falei. A leitura das cartas ia tão bem que Áquila nem percebeu baterem na porta, só percebeu quando a cartomante – que sabia tudo pelas cartas – perguntou quem era. Entrou uma velha maltrapilha, olhou para ele e lhe jogou um feitiço dizendo que se casaria, mas sua esposa e ele seriam como a águia e o lobo. Só se encontrariam à tardezinha, na mudança do dia para noite, porque à noite ele se tornaria lobo e de dia ela se tornaria águia. Viveriam juntos, mas separados pelo tempo e pela natureza animal.
Durante o dia Áquila tinha uma vida e uma alma feliz de uma pessoa normal. Interagia com pessoas e entidades públicas. Tinha uma função social, nome, Rg e CPF. À noite tornava-se um lobo solitário à margem de interjeições impronunciáveis e indescritíveis numa crônica como esta. Perambula pelas ruelas escuras de sua vila e de sua vida roído de ciúmes e idéias às avessas, que a solidão e o desamor criam e voltava de madrugada, quando o sol ia nascer, no limiar entre a noite e o dia, e encontrava-se com uma jovem de uniforme da policia e sorriso largo com quem se casou. Casou-se mesmo com a mulher de seus sonhos depois que ela deixou Julião, mas ele ainda alimenta ciúmes do antecessor. Ele deveria ser o primeiro! Assim Áquila foi definhando e não voava mais como uma águia, mas dava pulos na cerca como uma galinha e não passava do outro lado. Pensava mesmo que era uma galinha, porque as águias pulam de altos rochedos, estendem suas asas e planam nos céus. Áquila fez um galinheiro mágico para sua vida e se pôs sobre um poleiro tremendo de frio e de inveja dos abutres planadores, até que naquela fatídica noite em que foi detido pela própria esposa. Que vergonha! Ela lhe autuou, mandou rebocar o carro para um ferro-velho, levou-o para casa de viatura, pôs na cama, o cobriu com um beijo e pagou a multa de Áquila, que sonhou com ela até o amanhecer e pelo resto da vida celebrando o encontro de cada dia.

sábado, 21 de março de 2009





Se quiser, faça seu comentário abaixo.
Grato.

Sons

Perto da casa de meu avô passava o trem. Certa vez dois homens foram atropelados ao atravessar a linha, a noite. Meus tios foram ver o acontecido. Nós crianças fomos privados da visão horrenda. Dava, contudo, para se ver da casa, um monstro comprido, parado com um holofote aceso e um aglomerado de gente em volta. Quando voltaram diziam que os mortos eram assim, trabalhavam não sei onde e quiseram cortar volta, porque iam fazer não sei o que. Dois desconhecidos que comecei a ver na rua, no rosto de outras pessoas, todos começaram a ter as caras dos mortos. Às vezes, estávamos jantando e ouvíamos o apito, dava para se ver aquele monstro vindo, soltando fumaça e se ficássemos quietos ele passava. Os apitos eram cada vez mais próximos, mas estava passando já, ia-se. Os trilhos eram um tabu, perigosos.
Outro som que ouvíamos era o do sino do cemitério, cada vez que chegava um corpo para enterro. O coveiro ficava postado embaixo dele e puxava a corda do badalo, que parecia um martelinho chato o seu som. Parecia que tocava sempre a tarde, quando o sol ia se pôr, o que dava mais tristeza. Sabíamos o que era enterro. Este ato nós acompanhávamos mesmo na tenra idade. Era um ato religioso, um dos atos de misericórdia do catecismo romano. Enterrar os mortos. Mortos que nunca enterrávamos, porque a cada badalo que se ouvia de casa, aquele comentário da minha mãe: hum, mais um que se vai, coitado. Imaginava esses mortos, era o que mais eu fazia, até meus brinquedos eram imaginários de tão escassos e de quebrá-los para ver como foram feitos, acabando por destruí-los. Quem seriam aquelas entidades? Mortos para nós eram pessoas, que tinham certo poder. Sem corpos, almas, fantasmas. Velhos, os velhos morriam. Se fosse criança virava anjo. Mas aquele som do sino do cemitério prendia-nos por uma emoção estranha da morte de outrem.
O sino da igreja era um sino diferente, que ressoava. Era um sinal de domingo, de festa. De obrigação somente a missa e depois algum parente vinha nos visitar, ouvíamos a prosa dos adultos, éramos os coadjuvantes mais participativos. A lei do “primeiro os mais velhos”.Então sentávamos a mesa e após as visitas servirem-se, fazíamos o nosso prato com macarronada e suculenta mistura. Era um dia de graça, ninguém batia no filho na frente do hospede. Era bom o domingo, mesmo que as segundas-feiras fossem cinzentas, restavam um pouco do calor do dia santo.
O tempo passou e hoje o som de moto com o escapamento aberto e aquele som do caminhão do gás...Um Beethoven mal tocado, escorrido pelo ouvido como cera. Credo. E meu Deus, pour Elise, os cachorros, que tem audição mais aguçada, não suportam! Talvez sintam como o apito do trem ou o som do martelinho do cemitério. Latem sem parar, assustados. Será que vale o preço de um botijão?
(Texto publicado na Tribuna Piracicabana em 21/03/09)

sábado, 14 de março de 2009


Se quiser, faça comentário abaixo. Grato.
Por minha vez vou comentar, como faz opankada no seu blog, que ontem vi os cover dos Be Gees aqui em Pira e recomendo. Hoje o texto tá bom pra cachorro.
Evolução das espécies

Desculpe-me Darwin, mas no desenho do esquema evolutivo dos hominídeos até o Homo Sapiens, o próximo elo seria o cachorro, mais evoluído que o homem. Sim, o homem evolui para a do Canis Familiares. Na pré-história já o cachorro foi domesticado, adestrado. Enormes feras se submetiam sob a guia de algum homem-macaco alfa ou mais recentemente sob as ordens de algum Barão posudo, da idade média. O cachorro via de regra aprendia e imitava os costumes do dono, a postura, o olhar, o jeito de andar, etc.
Talvez isso se deva ao mundo capitalista. Os cachorros de senhores abastados, são lhe dóceis, comem nas mãos, lambem os patrões, mas a necessidade de se buscar comida e por vezes, alimento regurgitado, faz os cães mais destemidos. Nas regiões pobres, após vários cruzamentos surge um cachorro, típico da pobreza. Um cão que revira o lixo e vai em busca do alimento diário, sem pestanejar, sem ligar para humilhação ou amizades inconvenientes nos bares e restaurantes. Sabe oferecer a outra face a cada patada humana. Não faz acepção de pessoas, se dá bem com sóbrios e bêbados. Como o cachorro do italiano da venda, que o barulho lhe acusava a presença. As latas do lixo freqüentemente estavam reviradas na calçada, as de leite em pó dentro de saquinhos, cortados pelos caninos, desciam a ladeira acordando os vizinhos. E logo gritava: È varda tomba latone! O engenhoso vira-latas brasileiro, conhecido até na Europa. Um cão de rua que aprendeu a se virar e a virar latinhas para sugar o resto dos alimentos. Um cão de ninguém, que sai em retirada para não ser alvejado por alguma pedra.
Hoje, em pleno sol de meio-dia, vi meu vizinho que ia pela rua e na frente um cachorro como se segurasse uma guia invisível. O cão o puxava, ia a frente. Tão parecidos, eram como dono e cachorro. Um cãozinho preto e roliço. Puxei assunto com ele para falar sobre o “seu” cão, que também parou para ouvir. Bem, assim, só pude lhe dirigir elogios e perguntar se o animal era seu. Não. Nem sabia quem era o infeliz em busca de dono. Disse que apareceu por lá, pedindo água e algum osso. Tinha sim um cachorro, mas não este. O seu era imponente, ganhara vários concursos de beleza. Este era um enxerido, aparece e desaparece quando quer, deve ser de algum outro vizinho, mas se dá ao luxo de transitar pela cidade, tomar ônibus e roubar os cafunés das pessoas, mas não dele o pseudo-dono. O vira-lata ouvia tudo calado, não se importava, nem um latido. Fingia-se de surdo, só olhando, cheio de sentimento. Fomos andando e quando chegou a casa, despediu-se de mim e entrou sem o cachorro.
No portão ficamos eu e o cachorro, olhando através de uma grade quadrada, com duas gaiolas na parede, um chão de piso branquíssimo e uma beleza fria e inóspita de uma casa amuralhada e bela. Ele morava ali, numa casa tumular. O lixo ficava suspenso num cesto de metal e só o caminhão do lixo o pegava. O cachorro dava-me estranhos olhares e nenhum latido. Lá no fundo daquela pirâmide moderna estava o seu elo perdido.Fui embora sem o cachorro. Ao passar novamente pela mesma rua, já tinha se ido. A casa continuava com aquele aspecto de arquitetura preservada e terrivelmente limpa, sem nenhuma viva alma. Um silêncio de casa sem ninguém, sem campainha ao alcance da mão e uma voz rouca que perguntava quem era. As palmas ecoavam pela garagem com dois carros novos. Um cachorro espiava pela porta, era o seu. Fui embora com medo.