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O blog atém-se às questões humanas. Dispensa extremismos ou patrulhas. Que brilhe a sua luz. Bem-vindo e bem-vinda!

terça-feira, 10 de março de 2009


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Homem na lua

(562 leituras no site da Tribuna Piracicabana e muitas criticas, não é das minhas melhores, mas?)

Os americanos chegaram à Lua, os soviéticos também. As nações de primeiro mundo fizeram estações orbitais no espaço. Ficavam dando voltas, imitando um astro gravitando ao redor da Terra. As viagens interespaciais, antes ficção, hoje são factíveis. Os avanços na área da robótica, da medicina e da física são surpreendentes. E aqui do lado do Cruzeiro do Sul, onde o céu é mais azul, o sonho de se chegar à Lua, de ter um astronauta brasileiro foi ganhando corpo; assim como a prosa que tive com o vovô Patusko, que já foi astronauta de testes, recusado no programa espacial por indisciplina. Sentado em sua cadeira de balanço, aparando com as enormes mãos os imensos bigodes, confessou que a sua dispensa se deveu àquele capricho: não cortar os bigodes de escova, pegava mal na mídia e dava problema para pôr o capacete espacial. Contou-me que muito foi adaptado dos testes da Nasa. Testes no ambiente sem gravidade, sem chão. Isso era difícil para um bonachão, gordo como vovô Patusko.Para flutuar: o candidato à astronauta teve de passar um ano com o salário mínimo, perdendo peso. Escolheram o melhor, o que sobreviveu e mandaram para o espaço. Mas a primeira nave tripulada sofreu dano ao retornar à atmosfera terrestre e o tripulante morreu atropelado por um meteorito. Erro de cálculo da trajetória de reentrada, mas o meteorito salvou o grupo de cientistas desviando a atenção para o pequeno meteoro. O segundo vôo caiu no rio Amazonas e os índios comeram o tripulante, assado já. O terceiro vôo deu problema na comunicação e era um domingo de futebol clássico no Morumbi.A imprensa noticiou o roubo da bola que o jogador lançou contra a arquibancada e sumiu no meio da torcida “organizada”, diziam que o vendedor de amendoim saiu com ela no cesto ou pôs num cone de amendoim para disfarçar. Até hoje não se sabe, mas a câmara de segurança flagrou uma jovem grávida ao sair pelos portões laterais, antes não tinha barriga. Enfim, depois de que os americanos fincaram sua bandeira na Lua e os soviéticos fizeram suas incursões além da camada de ozônio, há certo desinteresse da opinião pública. Chegar à Lua agora é coisa de político e de chinês. Ninguém liga mais, só as autoridades e a elite.Depois de tanto desinteresse, a multinacional do espaço Sideral & Sideral terceirizou os serviços e mandou um padre para o céu. O padre Josef Balon. Um astronauta ideal. Subiu aos céus dentro da roupa de astronauta, sem ser reconhecido para evitar merchandising religioso, constava no contrato. O religioso, a exemplo dos primeiros astronautas, olhou a terra e viu que era azul e que Deus não estava lá, na Lua. Desceu no astro parcialmente iluminado. Solitário, deu voltas aos pulinhos e em comunicação com a terra, voltou para a nave correndo, estava frio e solitário ali. Tinha a alma leve e o corpo também. De repente as comunicações foram cortadas bruscamente. O padre ficou lá, sem contato com o comando do programa espacial na terra. Ouviram-se chiados como chuva, rojões e nada de som humano, nada compreensível. O sonoplasta do programa espacial terceirizado então tentava pegar alguma estação de rádio do exterior e ver o resultado do jogo amistoso de seu time e também ver alguma coisa diferente além da lua, até que as caixas de som do imenso laboratório espacial voltaram a retransmitir direto da Lua: Pamonhas, pamonhas… pamonhas de Piracicaba.Por fim, conta Patusko, que o padre voltou. O programa obteve contato visual em tela quando da reentrada na atmosfera terrestre e o padre, faminto, via-se pelos beiços amarelos, acabava de “matar” uma última pamonha com palha e tudo. Desceu da cápsula na praia de Copacabana e na corrida até o banheiro o atleta de Deus foi ovacionado por civis e militares que se postaram para recebê-lo. Após a chegada do banheiro e da Lua, mais magro e grisalho, deu entrevista coletiva e oficial contando que lá, na Lua, viu estrelas e cangurus saltando de um lado para outro, que a terra não é azul e sim verde e amarela, Deus o esperava lá e o seu time, o qual não divulgou o nome, finalmente ia ser campeão. Mas e as ditas pamonhas?! O padre astronauta contou que já eram vendidas no espaço interplanetário e comprou de uma nave espacial que passava por lá, por um real a dúzia.Aqueles homenzinhos de orelhas pontudas não perdem um cliente, mesmo! Graças a eles, sobreviveu, porque tinha acabado o estoque de pílulas de água e de comida. E o retorno à Terra?! Foi fácil. Deixou a cápsula dar voltas ao planeta, até que entrou na atmosfera em segurança, sem queimar com o atrito do ar e então fez uso do tele-transporte para se materializar novamente no assento da espaçonave. Que viagem!

sábado, 7 de março de 2009

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Dapho

Lê-se a inscrição DAPHO no cocho antigo de comida junto à porta. Velho e comilão, a cheirar o vento, a ver o dono sentado e culturalmente acondicionado em sua mesa. Causídico ilustre no meio de muitos volumes de processos pendentes. A pendência e os prazos é o que mais domina o mundo dos humanos. Inventaram o relógio para contar o tempo que não podem controlar. Fazem projetos, lembretes, intenções e no fim tudo termina num inventário volumoso ou até em autopsia, a desgosto do morto.
Dafo (pronuncia-se assim) olha, por vezes chora, escondendo as lágrimas nos pêlos e nas dobraduras de seu rosto de canino velho, de Sharpei. Lá esquecido, alegra-se com um resto de comida, com o cheiro do dono e nem o fiscal do condomínio o percebe, se o vir não ligará. O mais longe que vai é quando desce as escadas para pegar o jornal matutino, que lhe servirá de cama no final do dia. Isso aprendeu a fazer desde filhote. Se o entregador se atrasar, fica aguardando no jardim atrás de alguma roseira.
Pela porta aberta reencontra o bípede, agora líder da matilha. Esse sabe fazer coisas interessantes e usa uma língua, que não sua, debaixo do pescoço, chamada gravata. Usa uns olhos postiços para ver, tem um olfato péssimo, que se não latir nem percebe o cheiro da chuva que se aproxima, para fechar as janelas. Um gato branco da mulher do dono também perambula por ali com uma coleira vermelha e seu nome gravado. Quando ela não está, o gato além de importunar Dafo, faz lembrar ao dono o asseio feminino e os hábitos culturais da estética, que por vezes, destarte a pressa e seus modos, são práticos, mas bárbaros. Sua letra é um risco mal delineado, que, ao reler, se socorre com os filhos para elucidá-lo.
Dapho aprendeu a repartir o espaço com o felino, porque também já foi “menino”. O gato some, reaparece à noite. Volta arranhado ou nervoso, ele não se apavora. Tudo passa. Os seus filhotes por certo errarão pelo mundo das vizinhanças, ou serão castrados por alguma madame solitária. O pior é quando o bichano lhe olha nos olhos, não o teme, não o ataca, mas é como se tramasse um ardil; Dapho sempre leva as culpas da armação do felino. O dono não consegue defendê-lo diante da esposa, por mais ilustre defensor que seja. A sua fama de bonachão, vagabundo e preguiçoso ficou na casa e até na consciência do dono mesmo.
O canil é o seu destino, decidiram numa junta de família, em última instância. Guarde-se uma foto no computador para as crianças. Percebeu Dapho a movimentação dentro da casa e que queriam dar-lhe um destino cruel, com piedade humana. O gato ficaria só, mas também a casa, porque gato não pára em casa, pensou Dapho, que nunca buscou o seu espaço além do jardim. Far-se-ia picar por alguma víbora como Cleópatra e escaparia à “piedade” do seu melhor amigo.
Assim foi-se Dapho. Peço somente ao dono que pegue o jornal no jardim para ler, ao menos neste sábado, esta crônica. Lembranças do seu cachorro. Dapho.
(Obs. Publicado na Tribuna de Piracicaba, sábado de 07/03/09, crônica criada a partir da descrição e discrição de um cachorro de um amigo)

sexta-feira, 6 de março de 2009

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O criador de tramelas

A forma perfeita é a circular. O melhor designer, a beleza é redonda. A perfeição é o círculo, diz o padre Vieira, embora eu ache que seja a espiral. Mas vamos as tramelas do seu João.
O homem sabia fazer tudo em madeira. Os desenhos da prancheta, por vezes, deixados de lado com um chá frio e uma bandeja de migalhas de pão, dava lugar a um projeto pessoal de íntima relação com a matéria bruta. Ia fazendo sem esboço, conforme a mente e os acidentes propiciavam a obra. Criações inimagináveis em designer arrojados e apreciados pelas pessoas modernas e ricas. Gostavam e pronto, compravam. Gênio simples e rude, seu João arriscava sua criatividade ao acaso, para ele o Universo fazia as formas do sucesso e um dia ganharia muito dinheiro. O dinheiro viria e juntaria a rodo, um pau de pegar água nos cantos que desenvolvera de forma ao seu gosto. Desenvolvera cabos de facas, bengalas, tudo personalizado. Ficava por dias em trabalho de criação, até que algum fato inusitado viesse a lhe dar a luz, como um Buda sob a figueira, esperava a Iluminação, o insight. Seu trabalho era arte, não artesanato, fazia-o sob encomenda e como Deus, não se repetia.
E foi assim com as tramelas encomendadas. O comprador, fazendeiro rico, queria tramelas personalizadas para a sua fazenda. Não aquela madeira retangular e verde pregada ao batente e que mantinha as galinhas fora da cozinha na porta de serventia ao quintal, nem as que serviam para manter as janelas rudes no seu lugar em dia de vento, mas algo diferente, que não sabia o que era e para isso contratara os serviços de seu João.
Seu João pensava e testava todas as idéias. Reconstituía em seu laboratório a porta, a janela e testava as tramelas. Foram dias, meses, sem sair de lá, num contínuo de tempo eterno, sagrado. A esposa estava se cansando de ver o marido naquele trabalho, exausto sem nada produzir, sem comer e beber. Era uma compulsão. Nova forma, um novo desenho na prancheta, marcas da ponta do compasso, lápis com ponta quebrada e riscos na própria mesa, era o impulso de ira a cada fracasso. Quebrava compasso, lápis, souvenires. Esmurrava a mesa impiedosamente. O temor da esposa, a cada visita ao ateliê, de se ouvir o pam-pam na mesa pelos murros da insistência de seu João. A presença da mulher o incomodava, tirava-lhe a concentração e o trazia à rotina cansativa daquele olhar meigo com sua travessa de biscoito caseiro e o bule fumegante do chá da tarde. E nada de sair sua criatividade embotada.
Numa destas visitas atingiu com um murro a tramela redonda na porta-teste. Metade caiu e metade ficou fixa no batente. Um golpe de sorte. Estava resolvido o problema. A porta abriu-se no espaço do meio círculo vazio. Obvio demais, solução advinda do acaso, de um acesso de raiva, essa era a idéia que o Universo lhe dava, o vazio lhe dera a solução, os dois lados do Tao, yin e yang. Refez o desenho, por peso e medida e um formato que propiciava abrir com resolução integrada, a prática e a beleza, de forma simples e registrou sua patente. A tramela abria e fechava com um pequeno deslocamento de contrapeso de adorno num dos cantos, que voltava ao repouso depois de a porta aberta ou fechada. Genial, gritaram ambos. Bonito, simples e lúdico!
Tomou o chá e os biscoitos, pensativo na consecução da obra. O modelo em série. Era só seguir o fluxo do acaso criativo até o colapso da ordem cósmica e da criação da obra: a tramela adornada.
Passados dias o dono da encomenda veio buscar as tramelas. Não estavam prontas. O homem passou pela porta aberta por uma bela tramela dourada. A esposa de seu João o recebeu. O marido veio depois e cumprimentou o visitante com a mão esquerda. A outra estava dolorida e inchada, atingida por muitas tramelas. Ainda não terminara a sua obra, o mercado que esperasse. Não especulava com a sua criatividade e talvez nem as vendesse, eram de muito apreço.


domingo, 1 de março de 2009


Para descontrair um pouco...
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Missão espacial

A ciência quase divina do primeiro mundo garantia o evento. Expectativa era a palavra. A humanidade chegaria a lua com um russo e um brasileiro na mesma missão. A fronteira final.
A missão espacial estava culminando para o lançamento da nave com o foguete. Milhões de litros de combustível. Como um bólido a nave ia ser lançada com os homens dentro. Dias antes os astronautas, como monges, ficam em retiro, também chamado de quarentena, para aquecer e preparar a mente para um mundo novo, o espaço. A transcedência. São heróis. A alimentação é feita por pastillhas de comida, nem a cozinheira, nem a familia vão junto. Estão sós no espaço. A missão pode fracassar por falha de algum componente minúsculo que seja, mas por falha humana nunca. É aprendizado, experiência. Se não voltarem vivos é porque foram sepultados no espaço. Vão para o infinito como deuses. Mortos no espaço, nas estrelas e a vista de todos. Estarão no livro de história.
Mas na quarentena houve um conluio entre o astronauta russo e o brasileiro. Iriam apostar corrida na superficie lunar com os carrinhos de coleta de amostras. Aquele carro parecido com formula I, com três metros de comprimento, de alumínio e mais leve, seis vezes menos peso na atmosfera de S.Jorge, chamou a atenção de vovô Patusko. Fórmula I ou carrinho lunar, voltara de vez à infância. Um jipinho elétrico que podia brincar por todo canto, sem a mãe para lhe puxar as orelhas. O russo por fim aceitou a proposta. Iriam fazer o americano nanar e sair a noite para dar voltas com o carrinho, no qual os cientistas americanos puseram toda a sua tecnologia, inclusive o comando de joystick. Patusko argumentava que a tecnologia era americana, mas o aluminio e o aço eram brasileiros.
De nada valeu a quarentena pré missão, a pregação cientificista da conquista do espaço, da escala evolutiva de espaçonautas: cadela, macaco e agora o homo sapiens. Eles queriam o próprio espaço, brincar de Formula I na lua, jogar areia na cabeça dos homens sérios. Não se contentavam com os pulinhos encenados do primeiro americano na lua, com uma bandeira esticada sem vento, com um aperto de mão espacial representando nações contenedoras, queriam brincar. A ciência para eles era um jogo de probabilidades, de ritmos, de possibilidades holísticas, de divertimento.
O russo posicionou-se na linha feita no chão. Patusko acelerou para aquecer o motor, um ronco silencioso, harmonioso, tinham de cuidarem-se para não cair em alguma craterra. Tinha-se a impressão de que na lua sempre é noite, umas sombras azuis-pálidas sobre um montículos brancos frios e uns buracos como ventosas na superficie e saudade de casa. A corrida iniciou-se pela gravidade diminuta, carrinhos andando desengonçados, sem grande estabilidade ou freios ABS. Os carrinhos batiam em montículos daqui e dali, barulhentos. Um facho de labareda saiu de uma craterra. A enorme fera pôs as patas para fora, ia subir. Então apareceu São Jorge com seu cavalo branco, armadura corta fogo, uma lança brilhante e fria e fez o lagartão descer para o sono, não era lua cheia ainda. Ufa! Mas o dragão estava vivo!? Sim, era de estimação e saia a tarde para lagartear, enquanto o santo cavaleiro fazia equitação. A solidão do infinito prega peças, vê-se coisas. A noite retornou ao silêncio gostoso, enquanto lá na terra os galos cantam no paiol e a lua vai-se no arrebol.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

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...Santidade, estão todos mortos

Uma leitura do filme A missão

O embaixador de Portugal, enquanto acaricia uma espécie de nossa fauna, calmo, balança os ombros e diz com ironia ao bispo que “a vida é assim, o que fazer?”. É a política. Se todos das missões, velhos, crianças, mulheres e homens, foram mortos, o que fazer? “Não. A vida não é assim, nós que a fizemos assim”, diz o prelado. Dirige-se a sua sala e dita ao secretario uma missiva ao Papa. “....Santidade, estão todos mortos..., melhor, escreva: estão vivos, nós é que estamos mortos”.
O violento chama de selvagem a vítima que grita pela sua impiedade e zomba do direito de espernear e sangrar. Desconhece a própria impiedade que volta contra si, como o mercenário Mendonza que foi rejeitado pelo amor da bela dama, que talvez não quisesse conluio com aquele tipo de covarde. É incapaz de amar, sua impiedade o fez duro, insípido. Por certo, porque escolheu outro, que apesar de irmão do mercenário, é seu antípoda.
Mendonza promete à amada não matar o irmão. Sai de sua boca uma negativa perdida, sem saber o que fazer. Está só, sentindo-se traído duplamente. Sabia que mataria. É seu código. Outra vez morre sem amor o homem e aparece o mercenário. Capitão Mendonza. Não suporta o ciúme e a humilhação. Os ressentimentos vêm como um rastilho de pólvora e mata o adversário, em duelo. Apunhalado morre o oponente seu irmão, sem saber reagir a força. Matar em duelo não é crime, mas Mendonza não pode mais viver como antes. O mundo está fervilhando e o caçador de nativos aposentou-se a mendicância. Isola-se, desprezando comida e água.
O padre Gabriel encontra o mercenário, amuado num canto. Ressuscita sua ira. O mercenário que lhe atacava a missão decaído, não muito diferente de suas vitimas – usou o caminho errado, porque um homem prostrado assim é para se rir mesmo. Não há mais vida, diz o próprio; mas se houvesse, tentaria a remissão de seus atos, provoca o sacerdote. Volta para a missão. Carregando como um jegue de carga todos os seus pertences e seus pecados. O mercenário voltou só, indefeso. Os índios podem matá-lo também agora! Seria um alivio ao homem, mercenário de si mesmo. Podem. Talvez queiram. Não o fazem, cortam as amarras da bagagem e jogam nas águas o que lhe restou da vida mercenária. Chora como criança; os índios riem e o acolhem.
Os portugueses atacam a missão indefesa. Mendonza pede permissão ao superior para lutar. Padre Gabriel não o permite, mas vai, atendendo aos anseios dos irmãos missioneiros. Padre Gabriel não pega em armas. Para ele se a vida não for por amor, não vale a pena ser vivida, se agarra ao Santíssimo e ao seu sacerdócio, em procissão. Os fogos cruzados sob o comando de um capitão, contrariado, percebe-se, cumpre ordens e mutila-se, um mercenário fardado. Vão matando crianças, velhos e mulheres, profanando a vida e a natureza. Gabriel segue paramentado em procissão levando o santíssimo, muitos vão caindo ao seu lado sob artilharia, mas ele ainda segue, não chegou a sua hora. Mendonza é alvejado antes, perto dali. Agoniza assistindo a procissão e Gabriel com o Santíssimo. Um balaço acerta o peito de Gabriel, que rodopia e cai morto. Deus não deu nem agonia ao pai espiritual do ex-mercenário, o levou da vista deste. Está tudo acabado, dirá o descrente. Os olhos de Mendonza se fecham por não poder ver, revirados no olhar da morte, após a queda de Gabriel atingido. O Santíssimo é juntado do chão e outros índios, seminus, ainda vivos, o tomam em procissão até a morte, conscientes, alvejados sucessivamente pelos selvagens brancos, enlouquecidos. Nós. (...Santidade, todos estão mortos...Estão?!)

domingo, 22 de fevereiro de 2009


Férias no Chalé

Era um dia de férias, frio. O casal resolveu descansar num conjunto de chalés, todos muito iguais e belos, num clube aconchegante à beira da estrada. Esperavam algum sol, mas após a chuva e garoas, só veio vento e um frio inóspito. O jeito foi se acalentar na cama com uns livros ou um cochilo, no silêncio entrecortado por rajadas de vento.
O rapaz logo se entreteve com a leitura, a mulher se encorujou num canto, coberta por grossa manta. Lá fora os passeios e atrações do clube estavam comprometidas pelo mau tempo e retração do casal. A moça de um lado, ele de outro com os olhos na Metamorfose* de Kafka. Ela se rendeu ao sono e ele ao pesadelo do estranho monstro de Kafka. Tinha de despertar dali, ver as atrações, logo seria a hora do almoço, o remédio para febre maculosa, que tomava devido a exposição a picadas por micuim, revolvia o estomago. Ela deitada revirava como um carrapato estrela e tentava lhe pegar as pernas frias, com dedos duros a denunciar o rigor do frio inóspito.
Pôs o livro de lado. Por mais atraente a leitura, não tinha medo de monstros marrons com perninhas, mas de carrapato e micuim. O que fazer? Pegar um café quente para a esposa sonolenta. Foi.
No restaurante vazio foi servido. Trouxe a xícara com cuidado e esmero aquecendo as mãos nela. Quase a derrubou ao tropeçar nas pedras entre gramas, estava sem os óculos de leitura. Conhecia o percurso até o seu chalé. Abriu a porta, entrou. A mulher ainda dormia na mesma posição. Anunciou o cafezinho: Eta, cafezinho bom, hum!...A mulher resmungou como uma estranha e já dormira de novo. Que sono pesado!
Sentou-se na cama. Não achou os óculos sobre o criado-mudo. Ela devia ter feito a sua costumeira arrumação no quarto, enquanto fora ao restaurante. Era neurótica por organização. Devia saber que não enxergava bem sem aqueles óculos! Ficou a pensar. Deitou-se com ela e cochichou algumas palavras de amor ao seu ouvido. Ela sorria com as cócegas de seus dedos acariciando o seu lóbulo. Acordou, abraçou-o forte e lhe deu um beijo como nunca houvera dado.
Ante às condições de frio e vento lá fora, deixou-se ficar com ela na cama, como dois casadinhos. A porta ficou entreaberta quando ele entrou e vinha um vento frio de congelar orelhas. Incomodado, levantou-se e foi fechá-la. Qual foi o susto, quando viu na sala um estranho no sofá. Era um associado, mas ali? Foi logo dizendo:
- O senhor se enganou de chalé, amigo! – e o estranho lhe respondeu, bem liberal:
- Não. É o senhor que se enganou de esposa. Essa aí é minha, nós nos casamos ontem.

*A Metamorfose – Obra Literária de Franz Kafka

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A Cigarra e a Formiga

– Por uma nova fábula -

Para onde foram as cigarras? O seu cantar se ouvia da sala de aula. Um guizo divino no entardecer. Um cantar para o sol, um zunido que ninguém cala. Do tronco cantam a sós ou em grupo. Fabulosas. Viram-se desengonçadas no tronco, para a esquerda e direita e levantam as ancas para cantar. Uma coreografia? Uma dança antes de começar? Começam e param, por vezes, como que afinando e vão num crescendo até conquistar os horizontes com um fôlego fenomenal.
Cantam, enquanto as formigas passam em fila, carreando folhas verdes para o formigueiro, sem dizer um pio. Andam em frente e só se comunicam entre si. Se algum animal ou homem lhe obstruir o caminho, picam, desviam, fazem novas trilhas. São previdentes, armazenam alimento para o inverno. Já as cigarras vivem somente em seu tronco e pelo tempo que Deus lhes dá, as formigas pensam que o seu trabalho lhes dará vida longa, mas não sabem cantar...
Intervalo. Com um graveto a professorinha revolvia as folhas no chão. Um vento invernal soprava, as folhas verdes foram ceifadas pelas formigas. A trilha delas pelo chão escondida sob a folhagem ressequida levavam a vários formigueiros. Agora só alguns troncos despidos permanecem clamando aos céus. A moça procurava algo no chão, absorta, até que parou com as duas mãos no rosto, não se importando com a fina garoa sobre si, no oceano dos sentimentos líquidos. A alma feminina que chora por aquelas cascas, que caiam insepultas, como que atiradas sem espírito. Cigarras.
Bosque de inverno. Cessou ali o guizo das cigarras. Ia chegando o frio. Sob as folhas secas viam-se alguns insetos variados, como formigas, a transitar numa trilha escondida, enquanto as cigarras silenciaram nos troncos. Um banco de madeira velho, curtido, de onde se vê o cenário abatido pelo vento úmido. Farfalham a esmo as folhas secas, sem viço, mortas, amareladas cobrem o solo, num tapete multicor a espera de outras do alto que se ajuntam no chão, cheirando a pessegueiro velho. Somente ouvem-se breves silvos, tímidos, de algum pássaro solitário, em despedida, que se vai rápido, fugindo do frio inóspito, pelas alturas lúgubres dos céus de inverno, some. Silêncio.
Debaixo dessa realidade bucólica, sob a terra a vida continua, seres habitam, além dos olhos do observador. Lá como o bosque de La Fontaine. Sob folhas velhas, um jardineiro atento verá uma trilha de formigas, uma linha sinuosa em desuso, esquecida, um caminho abandonado. Já se recolheram junto à panela aos pés da rainha. A cigarra cansou, já não canta, esgotaram-se suas forças, foi se agarrando sem fôlego na casca da árvore. Exaurida, vai cair como as outras, como num salto.
Por fim, a cigarra desceu da árvore, com dificuldade, com fome e sede. Caminhou pela trilha vazia até o formigueiro. Reconheceu as formigas que passavam todas as manhãs sob sua árvore com folhas às costas, admirava-as. Ainda na porta a formiga deu-lhe um agasalho e um frutinho. Depois que comeu e bebeu, a rainha das formigas quis vê-la. Abraçaram-se. Trocaram protocolos. A formiga secretária trouxe um contrato para que a cigarra pudesse assinar. Ficaria desde que, no verão cantasse para a rainha botar seus ovos com mais alegria. O inseto não aceitou o emprego, voltou sem assinar o papel e preferiu morrer contando no bosque, nas velhas árvores de uma escola rural, a ser escravo das formigas daninhas.

Ofereço aos professores e a minha professorinha que fazem trabalho de formiguinhas e tem de ter o fôlego de cigarras.