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O blog atém-se às questões humanas. Dispensa extremismos ou patrulhas. Que brilhe a sua luz. Bem-vindo e bem-vinda!

sábado, 27 de agosto de 2011

Meu aniversário



Grato pela visita a este blog. Espero que o texto de hoje seja de bom termo, que o leitor chegue ao fim e sinta como o escritor, satisfeito. Este blog de crônicas, surgiu para postar os escritos que saiam em jornal, hoje com a extinção da página e coluna cedida, volta ao sua original vocação, crônicas e me sinto mais à vontade de escrever algo de mais intimidade com o leitor. Fiquem à vontade para criticar e expor opiniões, vai enriquecer a minha literatura.


Poços de Caldas


Estivemos em férias por lá e na pousada vários amigos se interessaram pelos nossos livros. Fizemos amigos, alguns que gostam de ler.


Meu aniversário
Aliás, esse tema dá crônica e sabem por quê?
É que eu gosto de escrever tranquilo, assim como agora, nos degraus de uma igreja velha, vendo o arrebol passar atrás dos transeuntes e do ocaso do dia.
A leva de gente que cruzava a calçada abaixo se foi, algumas estrelas já cintilam. No infravermelho, pombas arrulham pelo campanário e pássaros em voos rasantes procuram um galho para dormirem.
Posso contemplar o silêncio da cidade e a impertinência de alguns grilos – sempre os teremos entre nós, principalmente nas horas de solidão; mas sem eles o que seria da noite? Se tivéssemos só o lusco-fusco das estrelas a piscarem e ninguém para fazer sonoplastia do infinito.
As estrelas, bilhões delas, eu conto algumas décadas e elas bilhões de anos luz. Sim, essas estrelas já são velhas e essas luzes que me chegam agora, são de há muito, de alguns anos já, de uns quatro aniversários atrás acho. Não se preocupem, não vou assoprá-las todas de uma vez.
Bem se vê que este céu não é só meu, e que meus sonhos já vêm de longe. Este é o céu de Galileu, Copérnico, estudiosos, poetas e de muitas pessoas que saem a ver o firmamento sem nenhuma pretensão. É mesmo. Como aquela senhora que atravessou a rua de bolsa vermelha, acho que o queixo vai lhe cair. Agora olha para a torre, confere as horas, se benze e se vai. Ela poderia ser qualquer parente minha, minha avó, tia, mãe, mas com a minha idade poderia ser todas em uma só. É como a estrela velha, nossas histórias, os vestígios de ontem, o vigor de um olhar que não descansa, de uma visão que se dependura no queixo, ou queixos - para quem os tem duplos, e talvez fique duas vezes mais extasiado. A vida ainda reflete nossos sonhos e depois da noite o dia voltará, mesmo que se tropece como a senhora que me viu nas sombras e se assustou, os sonhos continuam.
Os pesadelos, exorcizemo-los, o medo jamais se concretizará porque não é sonho, só este se concretiza, o medo se desvanece.
Bem, antes mesmo de entrar na igreja as orações vieram até mim, Deus me a balbuciou. Só a mim? Claro que não, embora deixe a autoria a algum letrado, escreve certo por linhas tortuosas e nem precisa assinar uma obra dessas e amanhã vou me esquecer desse texto em algum arquivo do computador ou deixar um manuscrito por digitar na gaveta, mas o maior prazer é tê-lo escrito e reverenciar a vida com o seu Criador. Vou levantar meu traseiro quadrado e vou tomar minha sopinha. É noite.



Notinha sobre O Seminário: Pessoas que acabaram de o ler vêm comentar. Grato. Alguns brincam e me chamam de Teófilo. É certo que me identifico com o protagonista, mas escapa a alguns que tem dois teófilos no romance e o segundo é o narrador. Abaixo a foto do Cássio Padovani e minha, ele quem primeiro fez a correção de O Seminário e concluiu, dentre muitos comentários que ia apondo no texto, que era um excelente livro de relatos. Então, depois que me caiu a ficha, resolvi fazer em linguagem de romance e não de relatos ou histórico.


sábado, 20 de agosto de 2011

Obrigações

Sobre o Sarau Literário de Piracicaba-SP

No sarau conduzido pela Ana Marly Jacobino uma pessoa se manifestou sobre a revolução pela literatura, de um sentimento genuíno de um novo Brasil, melhor, com as pessoas lendo e escrevendo. Creio que a comunidade do Amor Fraterno esteja no caminho certo e lá muitos escritores, inclusive mirins, a cujos o Sarau abriu e abre espaço e pudemos aprender e ver muitas coisas. Lá o escrever está dentro da vocação do termo, as pessoas falam de suas experiências e sonhos, de seus conhecimentos cotidianos de vida, amor e gentileza. A literatura não se faz de cima para baixo, ela tem de descer ao chão e ser criada como um adão e eva; não se compreende literatura aos usuários de chavões linguísticos e expressões cunhadas pela mídia, a verdadeira literatura tem expressões próprias e não se serve a patrulha de nenhum tipo, forma antes pessoas que "escritores". Passa-se na mídia por literatura como obra de personalidades e campeões em vendagem, literatura não é isso, ao menos para mim. Sobre texto abaixo:


Amigos, pensando no que postar aqui, achei este texto de quando meu pai ainda podia se expressar e andar. Não quero que ele seja uma perda para mim, porque quando vou escrever e "conhecer" alguma coisa, sinto algo da sua consciência em minhas descobertas de expressão literária, embora ele não seja literato ou erudito, tem o terceiro ano do primário somente. Não sou adepto de nenhum esoterismo, mas sinto perto dele uma energia forte, às vezes boa e em outras vezes ruim, própria de seu sofrimento; mas sei que todas as energias que compõem esse universo divino estão ali na sua pessoa trespassada pelo parkinson. Se Deus nos deu a energia (aos que creem), dê-nos também a sabedoria de como usá-la, no tempo que flui pelos dedos. Amém.

Obrigações
A grade do portão os separa. O velho com os olhos miúdos na porta entreaberta jogou a chave, que ficou há um metro das mãos do visitante. Um abismo entre o jovem e o velho, unidos por um sorriso e pelo acaso, a chave não chegou às mãos do jovem. A idade limitava as manobras com o corpo, as forças estavam deixando-o.
Por fim, o jovem pulou o muro. Por um momento de desmemoria o velho temeu por um assalto. Aquele desconhecido, ladrão de seus genes, invadia seu lar. Vieram-lhe os tremores pelo medo, depois pela alegria: era o filho aquele moço, afinal.
Beijou a face de barba por fazer. Os fios brancos no rosto enrugados lhe davam uma imagem horrenda. As orelhas crescidas e a idade avançada pela calva e a boca sem dentes, não afrouxavam o amor filial.
Sem espelho, pôs-se a barbear ao pai, que lhe devotava carinho. Daqui e dali o aparelho roncava feito um besouro a escanhoar um ou outro pêlo sem-vergonha. Um olhar de esguelha e uma nova etapa nas rugas, nas dobras do pescoço. “Tá parecendo pescoço de frango”, disse o filho. O velho riu. Ria sempre de suas misérias e dos jargões jocosos do filho – miséria tem quem não as divide, nem com um sorriso.
À noite, de um inverno, enquanto o enfermeiro-filho entrava pela porta escusa, ele acabava de tomar a sopa. Conversa de olhares à esposa, assunto de muitos anos, ainda não resolvido. Cada vez que iam concluir, chega um filho. “Quem tai?”. A visita sorrateira toma assento à mesa e faz parte da família, é mesmo o filho da noite. “Tomou os remédios hoje? Líquidos?”. As reclamações da mãe e a atenção dos olhos pequenos do pai, acostumado a não se incomodar mais com as contendas habituais.
Enquanto esfregava as mãos gélidas da noite fria, ouve a mãe, reconhece as reclamações de cor e fita o rosto do pai, no qual vê muito mais que um senil enfermo. A mãe alcovitava, também tinha dores, canseira e necessitava de apoio – era saudosa, nostálgica, fervorosa em sua religião familiar católica. No entanto, ela fazia certas concessões em seus valores como à amizade com evangélicos vizinhos, cuja ajuda sempre recorria e tolera a vida de amásio dos filhos não casados.
Ao velho os pijamas. Não gostava desse conjunto de bolinhas azuis, “que mais parece palhaço de circo”. O filho puxa-lhe a calça pelos pés, ele senta-se na cama. Faz-lhe cócegas na planta dos pés – brinca – “dá o pé, Mané!” – ele ri e a mãe o repreende tamanha intimidade entre pai e filho, mas aquiesce amiúde. Põe, por fim, o pijama e lhe dá um tapa na bunda, fraco, diferente ao que recebia na infância. A parte de cima do pijama é um brincar de esconde-esconde até achar o buraco do pescoço. O pai consegue, com um puxão do filho, saltar a cabeça fora como um jabuti velho, com a cabeleira branca revolta está rindo.
A mãe assiste e pode rir dos “palhaços” da família, sem escárnio e com certo alívio. Também pode esquecer por um instante, de uma eternidade suspensa, valores vitorianos que tanto faz sofrer as gentes. A vida não é obrigação, é arte de um clown sério.

sábado, 13 de agosto de 2011

Leitura de jornal



Amigos, agradeço pelas visitas semanais recebidas. O texto de hoje é sobre leitura de jornal. Acho que os jornais deviam dar espaço à literatura e aos gêneros literários, sem deixar sua vocação pricípua de ser veículo de informação; não é o que ocorre. O mercado voraz como dragão pauta-se por um determinismo econômico e uma pressa britânica de o que vale é o que se lê a grande massa, seja bom ou ruim, se sair sangue melhor - jornal é para forrar gaiolas mesmo. O status quo joga com uma cultura do nada, em que só se sabe o que dá um calorzinho no coração e uma rápida arejada nos neurônios, uma leitura de barbearia, de verborragia política ou amenidades de coluna social. Mas amigos escritores, digo aos que escrevem por amor, sempre haverá o nosso espaço se escrevermos com essência e falarmos na abordagem certa - o que é difícil. Nosso espaço, mesmo que esquecido ou relegado pelos jornais, sempre estará no coração de quem lê e um dia, se viermos a vender livros ou reconhecidos, será pelo nosso valor, não pela propaganda. Espero que curtam Leitura de jornal, um contraponto que fiz com um texto que li "enaltecendo" um tal jornal, o fiz pensando no lado do leitor pobre. Nota sobre o quadro ao lado: 1881-1973, France, Paris, Musee Picasso

Leitura de jornal
Não sou um leitor de jardim, nem meu cachorro traz o jornal na boca. Saio de casa pelo corredor da vila, a minha é a última casa geminada. Da janela meu vizinho passa o jornal do dia e adverte para devolver na hora do almoço, a mulher quer ver novela.
Pelas casas que passo veem-se exemplares enroladinhos lançados pelo motoqueiro, parecem que crescem com a grama ou chegam por encanto, mas eu tenho de afanar no seu Caetano ou ler na banca de revista, diante dos olhos do português, como criança a ver doce no balcão. Dos meninos que ficam olhando as peladonas que ele expõe, não reclama. Lá fico a imaginar o que tem nas folhas de dentro, mas vou levando os meus livros de sebo e o jornal de ontem para suportar a vida de hoje – exceto hoje com o jornal do seu Caetano.
Em tempo de férias os jornais em rolos ficam como papiros em língua desconhecida, herméticos, rolam e caem no chão dos jardins sob as intempéries. O dono da banca do jornal tem o poder de guardar esses volumes dobrados e os devolve depois, se não os vender.
Sou um leitor peripatético*, vou pelas ruas com o jornal na mão, desviando das sombras. A primeira página que leio é a última, o obituário. Por quê? Não posso visitar tantos parentes perdidos por esse mundo e alguns morrem sem avisar. Pranteio-os. Às vezes até um amigo que nunca mais mandou recados ou comentários para o meu blog e lá os encontro em foto, rindo. Quando tiro os olhos do papel, vejo carros cruzando daqui e dali, um motoqueiro crispando os olhos para mim, não adianta eu não vejo manchete. Depois de atravessar a avenida continuo a leitura na outra página. No café da esquina o pessoal já me roubou a sessão de futebol e, se os comentários da novela da dona ficaram junto, eu me ferro com o seu Caetano. Mas esse pão-duro vai usar o jornal para forrar para o cachorro mesmo. É cego como uma porta!
Ao ler andando os ventos amassam e dobram o jornal, é preciso amiudá-lo como dobradura para ler só a matéria, com um crivo bom, sem perder a linha. Se garoar, os respingos na lente prejudicam-me a atenção. Um patamar despercebido a minha frente embaralham as letras, faz pular parágrafos inteiros, mas equilibro-me por artigos. Por vezes, uma frase prende-me a atenção – foi lá perto de casa! Uma pessoa morta ao atravessar a rua!
Temo em passar para outra página, antes me detivesse na de rosto. Vou descendo pela rua do acidente, fechei o jornal do vizinho e guardei na mochila. Sei que vou ver algo terrível, mas leitor de jornal tem de encarar isso às vezes, pelo jornal ou pela TV seria mais fácil, mas...
Lá um contingente de curiosos e no centro do círculo um corpo encoberto por jornais. Era mais uma foto para o jornal do dia seguinte, mas eu queria ver o rosto e não aquele embrulho. Fui chegando, contido, como parente e descobri o rosto da vítima – Seu Caetano! Gritei de susto. E o atropelado retrucou: Cadê o meu jornal, salafrário? – mas, seu Caetano, era o jornal de ontem!

*Discípulo da escola Peripatética fundada por Aristóteles, em aulas feitas durante as andanças pelo peripatoi, uma alamenda situada nos jardins do Liceu, pela manhã, nas quais se discutiam questões filosóficas mais profundas ligadas à metafísica, à física e à lógica.

sábado, 6 de agosto de 2011

Discussão passageira


Gratos aos mais de oitenta acessos e aos novos seguidores e ao convite do Kleber, da revista Carpim Diem. "Carpe Diem é uma frase em latim de um poema de Horácio, e é popularmente traduzida para colha o dia ou aproveite o momento. É também utilizado como uma expressão para solicitar que se evite gastar o tempo com coisas inúteis ou como uma justificativa para o prazer imediato, sem medo do futuro." - pesquisa na wikipédia.
Posto hoje um texto para desopilar um pouco,
é uma cena divertida dentro de um ônibus. Como em todo ambiente, sempre uma discussãozinha e se ninguém se ferir, tudo bem. Aproveitei o vocábulo passageira para substantivo e adjetivo, como a mente encaixar melhor.
A foto ao lado não tem nada a ver com o tema e é de integrantes do grupo Andaime.

Discussão passageira
O alvoroço se estabeleceu na catraca do ônibus, que balançava nas curvas. A fila espremida para passar na roleta. A mulher fora esbofeteada pelo cobrador e revidava com a bolsa grande que tinha nas mãos. Os de trás recuaram do campo de batalha, alguns se aproveitaram e nas diversas paradas saíram pela porta traseira sem pagar.
O motorista da cabine vendo a estranha situa
ção com perdas de passageiros pelo caminho parou o ônibus, levantou-se e foi até lá pôr ordem. O que está acontecendo aqui? Cobrador e passageira puseram a explicar. Era a bolsa da mulher. Ela de “tudo combinandinho”, com um falar de ésses e érres, de esgar dissimulado e tinha as unhas de um vermelho de arranhar olhos. O moço não queria liberar a roleta para ela pagar depois que passassem os da fila, porque o dinheiro estava na bolsinha:
- Ora, era só abrir ali mesmo e pagar, minha senhora!
- O senhor não entende, é uma bolsa de moedas, no fundo desta.
...e começou a pôr coisas fora sobre um banco, sob os olhos dele. Antes que acabasse de fazê-lo e depois de quinze minutos, o condutor, não se contendo, lhe desfechou um chute e fez tudo rodar pelo piso
do ônibus. Desta vez um policial à paisana, que subira no ponto veio e segurou o motorista irritado. A conversa continuou no distrito policial próximo, todos ao mesmo tempo e o policial começou a relatar ao colega escrivão, mais ou menos assim. “Perturbação da ordem. A mulher aqui, na qualidade de passageira, o condutor e o cobrador aqui presentes, envolveram-se numa briga dentro do mesmo. O caso se deu devido àquela furtar-se a pagar da forma usual e só ter moedas.”
A mulher quis explicar ao “seu moço” escrivão. Era a bolsinha, não a colorida, era a do fundo e começou a pôr coisas fora, desta vez sobre a mesa do escrivão, para explicar. Num frenesi, ia abrindo bolsas e bolsinhas menores, em série, uma dentro de outra, todas de zíper e de cores variadas, cada uma para cada coisa. Ia expondo suas bolsas e coisas avulsas como uma loja de roupas ante os olhares masculinos de “óólha!”, “hum...?”, “é para vender, é?” até que por última achou a bolsa de moedinhas! Pagou ali mesmo, com alguns centavos de ironia, ao cobrador, que não pode dar o troco. O motorista e o guarda viram de relance algo que o cobrador guardou na jaqueta – ganhara um presente de uso exclusivo, um apito. A ordem foi restituída.

se quiserem, acesse-nos também no www.camilotextos.blogspot.com

sábado, 30 de julho de 2011

CAMPAINHA

Grato aos leitores dos 76 acessos e aos seguidores do blog, que amavelmente vêm a este veículo ler ou/e comentar. Estamos abertos em ouvir críticas, inclusive sobre a gramática ou figuras de linguagem, etc.; façam aqui ou no meu e-mail quartarollo.camilo@gmail.com e grato também À Tribuna pela publicação em suas páginas. O texto se refere a experiência que eu e meu irmão Fernando tivemos em olhar meu pai acamado, depois de seu tratamento para próstata, e suas dificuldades já acometido pelo parkinson. Grato a todos por compartilhar de nossa vida. Aproveito para dizer em favor da Tribuna Piracicabana, que é um jornal de interior, genuinamente piracicabano e seus artigos não se prendem só à dissertação ou ao mercado de patrocínio, mas cuida de ser um jornal de alma, não mera reprodução de informações frias e superficiais de amenidades, vermelhas ou de holofotes, tem dado espaço à literatura e aos autores da cidade. Difícil, mas tem essa força. E se mudar o i e a de campainha e teremos por assimilação a nossa companhia.

Ao se olhar com a consciência, muda-se a realidade.


Campainha
Não anda por si, não consegue deglutir, nem sorver líquidos. Seu corpo está limitado às mãos de outrem e o moço de branco não viria me render esta noite. Na folga dele a família revezava-se em desculpas. À sós com o doente fiquei. A noite alongava-se em penumbras do sono leve e alguns ais dele. Levanta-me, dá-me água, cobre-me, puxa aquela perna para cá. Mudava sempre de posição na cama sem se ajeitar em conforto. Sua silhueta era arquejante, em declínio das forças, a vida efêmera lhe ia deixando sob meus olhos, que relutavam em ver. Nos meus “dordolhos” e medos de infância ficava comigo, confortava-me. Ele fazia-me vencer os medos da noite, da depressão noturna, dos fantasmas.
Havia um relógio redondo onde eu contava as horas, conhecia bem aqueles ponteiros antigos e o barulho das engrenagens punham ordem no acaso. Meu tempo interior pulsava e meus ouvidos de dentro cochilavam até o repicar da campainha. Ele acordou, a fralda vazou. Vai tomar banho numa cadeira de rodas, lavo-lhe e o ponho na cama e não dorme, mata o tempo.
Saio a ver nas cercanias da casa velha, os puxadinhos de italianos. O quintal com flores e frutíferos que nasceram de alguma semente que quicou da lata de lixo. Meu avô chupava laranjas por ali. Durante o dia havia pássaros, agora via algumas nuvens e silêncio onde sentávamos para conversar. As árvores resistiram nessa terra penhorada. Naquela cadeira velha meu avô recostava-se com seu terço e chapéu e ali sentava eu para ver o pôr-do-sol e olhava de pescoço longo como a empurrar os prédios feito cortinas. A serra de São Pedro ficava logo ali, perto de nossos sonhos. Ali eu abria algum livro de leitor vagabundo e falava comigo mesmo. Os poucos que tive foram os melhores, porque os li. Lembro-me que parava a leitura para carregar o caminhão de feira e sentia o cheiro do depósito – uma suposta fortuna, hoje memórias de alguns estrados e bancadas velhas. Por vezes parava e meu pai estava fazendo contas, gostava de ganhar dinheiro e “amanhã a feira vai ser boa”, dizia. Deixava-me ler e nos encontrávamos na troca rápidas de algumas palavras. Se necessário, até fazia algumas citações, mas nunca foi um teórico, era um homem de atitudes próprias, com uma rude discrição. Alguns daqueles livros ainda estão empilhados por lá e eu por aqui de enfermeiro, tento curar minhas dores até o próximo repique da campainha.


Nossos livros estão à venda na Nobel do centro e shopping de Piracicaba, mas se estiver esgotado lá, nos enviem mensagens no e-mail acima e o providenciaremos autografado. Os grandes autores e editoras têm proeminência nas estantes e aparecem mais, o nosso carece de ver de perto; por isso somos independentes até o fio de cabelo e fazemos trecho a pé mesmo. Garimpai-nos! Temos O Efeito Espacial, conto, alegoria de um homem rato e um romance, O Seminário, peripécias de um jovem seminarista em busca de sua espiritualidade dentro de uma ordem religiosa em confronto com o mundo e suas contradições. Aos que quiserem, mando novamente a sinopse e comentários das obras.

sábado, 23 de julho de 2011

As crianças veem coisas que adulto está impedido pelo vício da cultura, aconteceu na minha família algo semelhante que transformei em crônica/conto. Vive-se com um terno a vida toda e quando o velhinho morre enterra-se com terno novo. Espero que gostem e comentem esse singelo texto. Ultimamente, com tantos afazeres, só consigo fazer os singelos mesmo e divido com vocês.

O terno do nono

Um céu cinzento de uma manhã fria de uns pingos cadentes aleatórios de entremeio, confuso o próprio tempo, e a menina:
- Mãe, porque defuntos usam terno?
- Para entrar no céu, filha. É isso.
- Mas disse que ia virar anjinho de novo, ele tem asas, mãe, tem?
- Fica quietinha, filha, depois a mamãe conversa com você.
O nono tinha mesmo um terno surrado e velho, um sorriso largo ao ver a neta e alguns passos cadentes pelo quintal com seu terço antigo. Mais vivo e mais caro que a herança eram as lembranças vívidas de um tempo em que o tempo parara no olhar de criança. Para elas o tempo não existe. O terno puído, por vezes dependurado em algum canto, indicava a presença do nono. O seu noninho. Agora não, o velho estava com um terno novo de missa. Por quê? Ora, o pai se rebelou contra a situação, disse que não ia deixar o nono ser enterrado com terno velho, esgarçado, com o qual vivia às voltas pela casa, não. Foi à loja e comprou o melhor terno, um que nunca o morto se viu no espelho e o vestiram para o velório. Afinal, era o primeiro morto da família, nem os anjos esperavam essa chegada fora de hora, pensou a menina. Ia rezar para os seus anjinhos o receberem bem, lá no céu o nono era um desconhecido e com aquele jeito de falar ia se desentender com São Pedro, que o padre disse que não era fácil, de gênio forte como o nono e... tinha algumas chaves.
Com o adiantado da hora o céu limpo estrelou, as velas bruxuleavam e as pessoas iam se acostumando no vozerio alheio à cena, aliás, o nono ia saindo de cena. A menina não alcançava o caixão, mas tinha a impressão de que o nono ia fugir por baixo das flores e ir para o céu sozinho. É isso mesmo, minha filha – confirmou a mãe. Os mortos pregam peças nos vivos, isso pregam. O rosto do nono era sereno e de um sorriso para a netinha, uma brincadeira de esconde-esconde, não o tocou porque já sabia que se fora agora, deixou mesmo um boneco que pensam que é ele. Se tocasse com o dedo se desfaria como farinha, o nono se fora há muito. Somente a criança percebeu e o adulto não aceitou. Deus o levou para o mundo dos dormentes, nada mais falso que um defunto de terno no cadafalso. Deixa-se o útero chorando – a vida é purgada para a realização de todas as dimensões humanas. A felicidade não é dada em doses de prazer hedonistas, mas em pitadas de dor...
- Esquisito esse mundo de gente grande! Não é menina?

Publicado pel@ Tribuna Piracicabana em 16/07/2011, com 29 leituras no site até 23/07/11
meu E-mail:
quartarollo.camilo@gmail.com.
Acesse-me também no blog
www.camilotextos.blogspot.com - blog de crítica literária
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sábado, 16 de julho de 2011

Amigos do blog e familiares Todeschini, reposto aqui essa crônica falando do meu avô materno, Carlos Todeschini imagem positiva na minha infância e na minha educação. Abaixo postarei em italiano, numa tradução do word para os de língua do país do qual emigrara.
http://www.youtube.com/watch?v=lDCELCR34EU&feature=related

Blogueiro
Jardinagem
O velho Carlos ali plantava, enxertava, ajeitava os canteiros, e convivia com todos os seres em miniatura do jardim. Estava encurvado pela idade o homem rude e cheirando a suor, a perfume de plantas e à terra. Conhecia os beija-flores quase que pelo nome e pelo voo e os via por segundos, batendo suas asas invisíveis, inesquecíveis. Os pássaros em confiança voavam rasantes ao velho de cenho branco que se entretinha em meio a tanto verde e cantos de algazarra daquele passaredo. Afoitos surgiam no ar com danças mirabolantes, outros paravam nos galhos das árvores, cantavam nas moitas e até ciscavam no jardim. Seus pensamentos eram limpos, sua cruz era leve e a natureza amiga. Ao chegar a casa à noite, entrava pelo quintal, tirava os sapatos de terra e antes de entrar na civilização, sentava-se, parava a pensar e agradecer ante o sol que se punha. Lá na cozinha, Irene chamava-o, que subisse a escada e saísse de sua soleira amiga, o jantar estava pronto, que viesse comer. Alguns netos entretinham o olhar na cena, vinha com uma rosa e sem jeito oferecia a Irene, tímido. Velho bobo não precisava se preocupar, dizia, mas todos os dias seu vaso de louça estava repleto dos mais variados matizes e perfumes. O sono de Carlos era um canto uníssono com Deus e com a liberdade.
Portava também um velho livro de folhas amareladas pelo tempo, de orações ao Senhor dos Jardins. Orava em pensamento, enquanto trabalhava, pelos jardins e jardineiros do mundo, por todos os jardins e casas, caminhava sobre as dez pedras brancas que ele mesmo colocara e que faziam o responso aos seus pés, em meio à grama. E que todos pudessem ter seu jardim! Amém. Sabia que não iria além do jardim, queria ser uma daquelas árvores, feias e rudes, a gozar da companhia das flores, cascas, poeira, sementes, que a natureza produz em sua vital dinâmica, arrasadora, inexorável e bela. Ao passar pelo jardim é possível ouvir-lhe os passos pelo farfalhar da grama num ruído verde que rompe o tempo, num zap-zap bem manso. Em meio ao jardim há água aos borbotões, o sábio jardineiro plantou uma vegetação de raízes profundas e ávidas de água, enriquecendo o seu solo, túmidas. As rosas perfumadas e lindas, noutro dia são folhas que ele varre amiúde junto aos pés das árvores. Sabia que seu jardim era efêmero como ele e sua glória. Aprendeu a ser humilde e feliz esperando o seu súbito final, a morte.
Foi capinado da terra e caiu como uma árvore, ainda com os ramos estendidos. Seu jardim acolheu o seu corpo, agonizante. Passou de um jardim a outro, o Senhor dos jardins acolheu o seu servo. Fizeram-se presentes todas as rosas, borboletas e uma grande revoada de pássaros de todas as espécies e cores, em seu funeral. No caixão de cedro, como que dormia, espraiava um sorriso em sua face, ainda rosada. Não quis honra, nenhuma pompa, apenas a mortalha, não quis nada, nada levou, foi inteiro para o céu, para o jardim que a muito estava preparado, antes da fundação do Universo. Morreu para este mundo, sem maculá-lo.
E lá, no jardim inominável debaixo do céu, das raízes enlameadas e túrgidas, ainda transparece a vida dadivosa das plantas. Nos fundos de uma casa velha e ruinosa, a qual descascam-se as paredes e os cômodos. Sim, é a umidade do jardim,dizem os engenheiros. É preciso derrubar o jardim, cortar a cabeça do Capitão e Dálias ao fogo, caçar os Antúrios, assombrar os Girassóis, corrigir essa tal Maria-sem-vergonha, nem que sejam as Onze-Horas, que se arranquem as Avencas e acabem com essa encrenca, tire-se o Chapéu-de-Couro, regurgite-se o Boldo e que se feche a Boca-de-Leão, nem que seja Flor de São José, nem que a Dona Margarida abra essa ferida, nem que se jogue a Hortênsia, nem que o Cravo apazigúe com a Rosa, nem que renasçam os Gerânios, que se derrube o arvoredo e se espante o passaredo, chega de Palmas.
Assim, indefeso, o jardim foi pisado, arrancado e calcado com cimento. Impiedosamente as flores foram jogadas dentro de um saco para o caminhão barulhento do lixo. Puseram um piso belo, importado com desenhos de plantas, muito bonito e limpo, sem necessidade de nenhum jardineiro.
O povo que vive do lixão retirou as plantas do meio dos cacos de vidros, latas, pilhas usadas, restos de comidas e outros detritos “desumanos” – de coleta não seletiva - e plantaram numa área invadida por pássaros, beija-flores, borboletas, gafanhotos, grilos e todos os rejeitados pelo centro urbano. Um novo jardim? Então encontraram também o livro de folhas amareladas, onde se lê nas letras rudes e piedosas de um recém analfabeto: Eis que o Senhor fará novas todas as coisas. Carlos. Versão no italiano
Giardinaggio
L'anziano Carlos ali di giardinaggio piantati, enxertava, ajeitava, il fiore letti e convivium con tutti gli esseri giardino in miniatura. Era curvo da vecchio sudore uomo rude e odore, il profumo delle piante e la terra. Conosceva il colibrì quasi di nome e volo e il percorso di secondi, battendo le ali invisibili, indimenticabile. Gli uccelli nella fiducia volavano vecchio cenho radente al bianco che avrebbe intrattenere in mezzo sia verde e angoli del clamore di passaredo. Afoitos si alzò in aria con danze travolgenti, altri si fermava sui rami degli alberi, cantando nella boscaglia e fino a ciscavam nel giardino. Suoi pensieri sono stati puliti, la croce era amico di luce e natura. Quando arrivi a casa di notte, entrato da cantiere, ha preso la terra e le scarpe prima di entrare alla civiltà, sit, si fermò a pensare e ringraziare il tramonto. Lì in cucina, Irene è stata chiamata il, che egli sale le scale e fuori del vostro davanzale amiga, la cena era pronta, che avrebbe mangiato. Alcuni nipoti hanno intrattenuto il look alla scena, è venuto con una rosa e goffamente offerto Irene, timida. Vecchio pazzo non ha bisogno di preoccuparsi, ha detto, ma ogni giorno le stoviglie pentola era piena delle più varie tonalità e profumi. Il sonno di Carlo era un unisono canto con Dio e con la libertà. Egli è anche un vecchio libro di foglie gialli da tempo, preghiere al Signore dei giardini. Orava nel pensiero mentre lavoro, giardini e giardinieri del mondo, da tutti i giardini e le case, camminato circa dieci pietre bianche che ha avuto anche e che ha fatto il responso ai suoi piedi, in mezzo l'erba. E tutti potrebbe avere il tuo giardino! Amen. Sapevo che non sarebbe andato oltre il giardino, voleva essere uno di quegli alberi, brutti e rude, per godere della compagnia della polvere, corteccia, fiori, semi, che la natura produce nella sua dinamica vitale, killer application, inesorabile e bella. Quando si passa dal giardino si possono sentire i passi dal fruscio dell'erba su un verde rumore che rompe il tempo, zap zap e manso. Nel mezzo del giardino c'è l'acqua riversato il giardiniere saggio piantato un radici profonde di vegetazione e acqua, Avid, arricchendo la sua terra, túmidas. Profumo di rose e bella, un altro giorno sono foglie che analizza spesso insieme ai piedi degli alberi. Lo sapevate che il vostro giardino fu effimera come lui e la sua gloria. Ha imparato a essere umile e felice in attesa di vostri fine improvvisa, morte.
Era capinado della terra e cadde come un albero, ancora con le braccia tese. Vostro giardino ha accolto il suo corpo agonizzante. È passato da un giardino a altro, il Signore dei giardini ha ospitato il suo servo. Presentano tutte le rose, farfalle e una vasta revoada di uccelli di ogni tipo e colori, al suo funerale. Nella bara di cedro, mentre dormivano, esteso un sorriso sul suo volto, ancora rosa. Non ha voluto non onorare, pompa, appena la Sindone, non voglio niente, niente ha portato, era il cielo, al giardino che la partita è stata preparata prima della Fondazione dell'universo. Morì per questo mondo, senza maculá.
E lì, nel giardino innominabile sotto il cielo, radici fangose e túrgidas, dadivosa vita mostra anche attraverso le piante. In una vecchia casa e rovinosa, che staccare il pareti e camere. Sì, è l'umidità del giardino, dicono gli ingegneri. Dobbiamo rovesciare il giardino, tagliare la testa del capitano e dalie licenziare, cacciare il Anthurium, infestano i girasoli, difficoltà di tale Maria-senza vergogna, né sono undici ore if estirpare Avencas e finire con questo problema, prendere il cappello-cuoio, il regurgite di mirtillo e chiudere la bocca-de-Lion, Flor de São José, né che le Dona Margarida aprire questa feritao che gioca l'ortensia, né che il apazigúe di clavicembalo con rosa, né che rinascono i gerani, rovesciando il Grove e stupire i passaredo, chega de Palmas.
Così, impotente, il giardino è stato calpestato, avviato e giocando con il cemento. Senza pietà i fiori sono stati gettati in un sacchetto al rumoroso camion della spazzatura. Mettere un bei pavimenti, importato con disegni di piante, molto bello e puliti, senza necessità di ogni giardiniere. Le persone che vivono nella discarica di rifiuti ha ritirato le piante dalla metà di schegge di vetro, lattine, batterie, avanzi di cibo e altri detriti "inumano" – inesigibilità selettiva e piantato in una zona invasa da uccelli, colibrì, farfalle, cavallette, grilli e tutti rifiutato dal centro urbano. Un nuovo giardino? Poi hanno trovato anche il libro di foglie giallo, che recita i testi rude e pii un recente analfabeta: Ecco, il Signore farà tutte le cose nuove. Carlos.