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O blog atém-se às questões humanas. Dispensa extremismos ou patrulhas. Que brilhe a sua luz. Bem-vindo e bem-vinda!

sábado, 14 de julho de 2012

Amigos, grato pelos acessos a este singelo blog literário. Faço minhas crônicas conforme meus olhos piscam minha existência  metaforizam o momento seguinte, como bits de computador. Não, a vida não é isso, é muito mais que uma metáfora. Abç e beijo pra quem é de beijo e vamos lá, leiam esta crônica brincalhona abaixo...
Leso-matrimônio
Na idade média as condenações por crimes eram cruentas, com sangue, decepção da cabeça e decepção de maridos. As chibatadas eram um meio de fazer um marido de princesa se acertar na casa, ao riso dos bobos da corte. Já cedo uma rainha anã aprendia a manejar o chicote que se deve pegar pelo cabo para não se ferir ou quebrar as unhas. Bater, sem arranhar os móveis e despertar curiosidade aos vizinhos.  Se o masoquista gritar, apanha mais.
A extensa lista de crimes, algumas quilométricas devem-se aos pingos de água e óleo que derrubou perto da geladeira, das toalhas de banho úmidas sobre a cama, sobre as baratas que as deixou vivente pelos cantos, dos bujões de gás mal engatados, dos ruídos da porta aberta, da torneira gotejante, da ebúrnea branquidão da toalhinha da pia (mulher percebe o branco mais branco e branco menos branco, ou o meio tom das duas coisas) e também das muitas faíscas de pão, estas que podem incendiar um casamento.
Há indícios de crimes de casamento a bons analistas ou detetives de séries de TV - na telinha todos os crimes são descobertos, por impressões digitais tiradas com suas luvas látex, por algum meio químico ou teste de balística, lá nos filmes americanos.
Na casa de lar brasileiro, logo pela pia se percebem pequenos deslizes. O café pela metade num copo de requeijão e uma xícara com as pregas de batom.  Uma colher solta dentro do caldeirão de feijão ou uma maça mordida por dentes pequenos na geladeira, quem foi? Na sala a coisa se complica debaixo de pilhas de jornais e livros, de (des)controles remotos e algum objeto contundente, lápis ou pinça. Difícil achar um programa acessível na TV aberta, aberta pelo homem que queria mexer no tubo, casamento sem TV digital é outro crime, inda mais na época de eleições.
De tantos crimes, leitor, melhor nem entrar no banheiro, você não suportaria uma entrelinha mal cheirosa e assim, às cobertas de um casal feliz, meigo e bons vizinhos, mas ainda restam malas no guarda-roupas e a caixa d’água vazando pelo ladrão. Ladrão não, pode ser a gota d’água, pode ser a gota d’água...
Aos que estiverem interessados, tenho exemplares do meu último livro à venda As ciladas do Androide . Se não gosta de ler ou não tem tempo, compre para o seu inimigo. ahahahhhhahh.
Contate-me pelo e-mail camilo.i@ig.com.br

sábado, 7 de julho de 2012

O homem que não sonhava
Suas madrugadas vãs eram andanças pela casa, contra o horário do sono, num relógio revoltado numa parede parada. Uma contagem para... per si, nada mais. Iam e vinham carros, caminhões e ônibus num ponto de desembarque, mas para onde? Dentro de casa tinha alguns quadros apagados e um uma escultura dentro da gaveta. Detrás da cortina via a noite passar, esta que os mortais ressonam, estanques. Quando muito punha os ouvidos na parede geminada e ouvia o seu vizinho tossir e continuar dormindo ao mesmo tempo, num zumbido medonho daquela colmeia gigante.
Se dormisse quem seguraria o eixo imaginário da terra, tamanha era sua preocupação com a vida e afazeres. Um avião passou no céu estrelado deixando um traço de fumaça que vai se desvanecer pela manhã. Um veículo não tripulado ou carregado de notívagos, estes céus vão desabar, pensava. O balanço da vida não o embalava, precisava estar de olhos bem abertos. Se fechasse algum cataclismo adviria nesse ano de fim profético da história -2012. O mundo ia acabar, disseram os maias, o professor e muita gente sabida. Afinal, quantos fins tem a terra? Já a exterminaram umas cem vezes a golpes de profecias ou porquês. Hoje o apocalipse já vem com fundamentações pseudocientíficas ou, alguma personalidade, um famoso, escreveu ou deu a entender. Já existe uma embalagem para a catástrofe, vem à porta, encartado em qualquer jornal ou folhetim de supermercado o manual do fim do mundo com distribuição gratuita sem sacolinha.
Tendo visto isto tudo, aumentava muito a probabilidade de nesta noite o mundo acabar. Razões é que não faltavam e nomes, muito nomes estranhos, mas convincentes para o fim, aliás, este insone tinha um arsenal de palavras no google, aurélio e wikpédia, só clicar e o mundo se destruiria gramaticalmente correto. Algum meteorito ou mesmo asterisco, algum movimento browniano da nossa galáxia, via láctea nos destruiria; aliás, este nome lhe dá vontade de beber o leite proibido pela nutricionista e que lhe dava pesadelos.
Foi assim absorto que aproveitou a companhia de outro vivente. Um gato preto que cruzou o portão e negaceava. Cheio de olhar nuvens que nada diziam saiu para ver as coisas de fora, com o gato que ia embora. Andou como Forest Gump, o do filme, cruzando mundos e ouvindo absurdas buzinas diante de seu pijama listrado de caminhante da noite. Atingiu a linha do trem desativada. Aqueles dormentes talvez lhe dessem algum sono e foi pisando neles com o felino sobre os trilhos intermináveis, andando para chegar ao horizonte que não chegava.
Caminhou horas, sem tirar as pedrinhas de sua pantufa ou coçar o traseiro, era um obstinado! Assim foi até que um trem imaginário o atropelou. A vida não perdoa mesmo, pensou o gato, e por isso insuficiente não terminou a crônica...

domingo, 1 de julho de 2012

Este texto é sobre o lançamento de um amigo e colega, egresso como eu, do seminário Seráfico São Fidélis de Piracicaba. Feito pelo Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba já esgotou no lançamento. Talvez tenha um segundo lançamento.
O artista e a obra
Frei Paulo Maria de Sorocaba vida e obra visual, escrito por Cássio Padovani Martins Pereira
Aos dezesseis anos lhe fiz uma pergunta. “Você não acha que é muito jovem para religioso?” Respondeu-me com firmeza de que estava seguro de sua vocação, e parecia ofendido.  Achei que seria mais um desafeto, devido à forma convicta, pareceu-me quase ofendido.  Não foi, encontrei um amigo e irmão no Cássio. Simples e querendo viver os ideais de Francisco de Assis em suas convicções vocacionais e éticas, sem se dobrar, estudioso, Cássio foi descobrindo a obra simples de frei Paulo, obra no singular mesmo, porque toda a dinâmica artística (em obras) deveu-se à sua espiritualidade, uma transmissão amorosa de sua fé. Cássio intuiu isso.
De rigor técnico, o estudante quis fazer um trabalho de confiabilidade, bem fundamentado, como são seus pareceres, quando os manifesta. É pessoa de ouvir e falar o necessário, e quase nada de si mesmo. Mas tem uma palavra ou a palavra certa, quando não a ação adequada. Depois de ouvir um ou outro, amigo ou não, sabe oferecer o de melhor, um café ou algum alimento em sua companhia. Se falar, vai demonstrar por alguma conversa algo interessante, em forma de crônica da vida, que restaure o senso de humor. Todavia, não se dobra a meros conceitos, cargos ou a questões econômicas, que fujam a ética ou a nobreza de sua alma, na estética de sua vivência, apreciada por muitos amigos e dois cachorros de muita estima.
O livro sobre frei Paulo foi um longo percurso e substancial na vida de Cássio Padovani. Começou com a observação contínua das obras, dos escritos, da sensação dos lugares por onde viveu este capuchinho e pode, inclusive, perceber o gosto para o qual Frei Paulo inclinava-se, a marinha – e nas obras sacras feitas por dever de obediência transparece, entrelinhas, sua crítica à vida religiosa, aos excessos do rigor das regras, em que frei Paulo valoriza as pessoas no concreto, não a instituição abstrata, cujas regras obedece na medida da caridade. Também transparece muitas outras coisas com as quais se identificou e lançou pelos pinceis.
Cássio, em princípio estudante do Seminário Seráfico São Fidélis, como frei Paulo, teve de sair para outras casas da província dos capuchinhos e ver outras obras deste frei, catalogar, inúmeras anotações, perguntas aos freis idosos e contemporâneos do artista e fuçar pelos sótãos e porões dos conventos, trazendo a lume a vivência do religioso.
“O frei me ajuda”, dizia, quase como médium se espirita fosse, mas a espiritualidade e o despojamento de frei Paulo o inspirava muito naqueles longos anos de seminário e talvez ainda hoje.
A obra em livro do Cássio – Frei Paulo Maria de Sorocaba vida e obra visual - ao iniciar é mais técnica e de rigor de datas, números e lugares - fundamentada; do meio para o fim vê-se mais a alma do capuchinho e homem frei Paulo, o João Baptista que queria ser frade. Frade, não padre; como Cássio, que abomina pompa e talvez mesmo este artigo.
Concluo dizendo que seu livro é referência, tantos aos profissionais da arte como a quem quer conhecer a espiritualidade franciscana, capuchinha e cristã, num século hedonista em que vivemos, onde valem os iates, dinheiro e a lei de gerson. A obra afirma: há algo substancial na vida humana.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Motorista de papel
carros de papelão
A habilitação tira-se com pouca idade e a aprovação social está estampada numa carteirinha. Dirigir é poder. Quer conhecer uma pessoa, dê-lhe um volante.  Quando o ser entra nesta cápsula com toda a tecnologia e tem os botões na mão... sai da frente! Alguns já dão a carteirada e prosseguem conduzindo e seguros pelo airbag de seus carros de luxo e vida de parasitas. Não se ponham no caminho deles.
Álcool? Dirijo melhor, por quê?
Esta é a resposta do ébrio.
Nestes dias vi um carro pequeno e de dois lugares, achei interessante com o modelo e como o trânsito em Piracicaba está caótico, seria uma opção de carro pequeno para dois e talvez para um lugar. Visto que a maioria dos carros a circular levam apenas o motorista e ocupam quatro vezes o espaço, poderiam ir quatro pessoas no veículo. Todavia o frentista dissuadiu-me:
- Ô chefe, se tivé oitenta pau, o senhor compra.
 Não tenho e o seminovo já é caro, então continuo com o meu.
Desde a descoberta da roda e da conquista do fogo os humanos sonham com essa máquina capaz de levá-los a qualquer lugar, tirar da miséria humana, vencer obstáculos de tempo e espaço, símbolo de transcendência. Fazem aparentemente isso, mas levam de si o pior, a falta de educação, o rancor, a falta de superação, o obstáculo a ultrapassagem, o desrespeito a outros viajantes da vida e quando decididos a parar, o fazem onde o nariz lhes aprouve, atrapalhem ou não.
Parece mesmo que se deve educar para o coletivo, um motorista que nos leve aos destinos que queiramos ir, mas onde? Nossos carros não nos levam somente ao trabalho, levam-nos por lugares nunca antes imaginados nesta cápsula do tempo e espaço, aonde vamos imaginando um mundo, que não existe sem outrem.

sábado, 16 de junho de 2012

Amigos, grato pelos 99 acessos e comentários. A Rio+20 é um ponto importante na consciência dos valores ambientais e para formular procedimentos sustentáveis de vida. Vivemos numa era em que a história futura vai ter como atrasada talvez, porque os que exercem opiniões e manifestam-se como senhores da mídia dizem sobre o crescimento economico e isso não é nada perto da economia que temos, pois fala-se muito de valor agregado, disso e daquilo e perde-se os reais valores da natureza, acumulado por milênios. Se a economia não girou, foi por falta de dinheiro ou porque mesmo com dinheiro nada precisamos compra, ora, será que pensam nisso, os economistas das bolsas.
Como não sou economista, espero que apreciem o
O homem que comia letras
Tinha um amigo que rasgava tudo que escrevia e comia as letras. Ele tem uma página no Facebk, comida já. Começou na infância, comendo os parabéns dos bolos de aniversário. Primeiro os dele, depois os dos outros. Acabou isolado, estranho, a mãe lhe arranjou uma psicóloga (este pê é mudo mesmo), porque na adolescência, ansioso, comia as pernas do ene, eme e de qualquer letra bonitinha ou mesmo a barriguinha do bê, e trocava o safado, punha um pê no lugar do bê para disfarçar. Depois de saciado destes petiscos criou um jargão: para bom entendedor um traçado é letra. Então que desenhasse, quem sabe recuperaria o respeito pelo letramento.
Como desenhista fazia garatujas que não se pareciam com nada, nem grafólogo ou psicólogo entendiam. Era um pollock gráfico, pontilhista, um sentimentalista derramado e assinava com uma letra comida, bêbada, trôpega, fria e sem gosto. Jos.
Sim, comeu o é final do próprio nome. O covarde pegava as últimas letras das palavras e as comia, avançava nos vocábulos afoitos que contivessem as pernas dengosas de um ene ou eme; quanto aos bês, de barriguinhas gordurosas e lentos, caçava-os mesmo e disfarçava com borrões.
Entretanto éramos amigos, mas não tínhamos palavras um com o outro, o fiz chamar-me por apelido indigesto para não comer meu lindo nome. Às vezes telefonava num entrecortado, eu desligava e ponto.
No início dava-lhe alguns textos meus para ele ler, e voltavam estranhos. Depois fui percebendo o que não queria admitir, ele petiscava tudo mesmo. Todos os sinais gráficos desapareceram, os de interrogação, exclamação! Nos erres, o malandro comia um e deixava outro para eu não perceber. Com o tempo percebi que, com textos de muitos esses ele se afogava. Os textos que dava para ele conferir voltavam à minha mão cheio de furos e com eros, digo com erros. Um detalhe: não comia parênteses. (inda bem)
Bem indicado de berço avoengo e pelo pai  mudo, Jos foi trabalhar no exterior sem nem bem formar-se nas letras das quais comia, no exterior e em país de língua portuguesa. Pasmem! Passou alguns anos lá e voltou bravo com os lusos. Por quê? Disse-me em poucas palavras, entrecortadas como sempre: eles já comeram quase tudo... não dá tempo de ouvir ou comer nada, finais átonos. Sem tonico e tinoco. Verifiquei que seu problema era oral, um mudo funcional. Assim dizendo com raiva pôs pela primeira vez uns érres de raiva para fora, rrrrr. Alguns eram dos meus textos que comera.
Apesar da raiva ficou por lá, para trabalhar na reforma ortográfica. Vou terminar este texto, (antes que ele veja e coma este também)

sábado, 9 de junho de 2012

Eu, robô?!
No livro Histórias de Robôs, que Isaac Asimov prefacia, numa fluidez e objetividade ímpares, argumenta sobre a tecnofobia e nomeia este sentimento como complexo de Frankenstein - na obra de Mary Shelley o criador é morto pela criatura. Na evolução tecnológica o medo da humanidade aparece com relação ao robô - o “nosso” Frankenstein - e de que nos mataria tirando-nos o emprego e substituindo-nos, ou mesmo substituiria toda a humanidade. A eliminação da humanidade?
O prefaciador diz que há duas inteligências diferentes, a humana e a robótica, com diferentes especialidades. Concorda que em termos de perspicácia, intuição, criatividade, capacidade de analisar e responder pela percepção, robôs ou computadores são ignorantes. Para ele é vão o esforço em construir computadores criativos, capacidade tão tosca diz, quando se dispõe do cérebro humano, que faz isso tão bem.
Não é à toa que Asimov propõe as três leis numa obra que fala de um robô que vai tornando-se consciente, o “Eu, robô”. Eis o enunciado das três leis:
 1º Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal; 2º Lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei; 3º Lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Lei.
Essas leis não se aplicariam também aos humanos e seus semelhantes?
Isaac Asimov confessa neste prefácio que quase todos os seus livros são escritos do ponto de vista de um tecnófilo, seus robôs são quase sempre simpáticos. A não ser na literatura ou cinema, não se conhece um robô do ponto de vista de serem pessoas, não há.
Em meu livro As ciladas do Androide trabalho esta relação homem-máquina do ponto de vista humano e de suas linguagens. O androide é o não-humano que pode se tornar parte do humano, sem deixar de ser robô com suas linguagens de programas e sub-rotinas, assim como muitas linguagens  que existem no Universo, inaudíveis, impronunciáveis, inexpressáveis, em que somente a percepção capta e não temos parâmetros para entender fora das crenças e espiritualidades.
Na verdade, o que a visão tecnicista de mundo tenta fazer é o humano ser robô numa eficiência numérica e produção mercantilista, sem crença ou espiritualidade, numa “criatividade” funcionalista. Criar é um bem espiritual, fantástico, que transcende os objetivos imediatos ou de lucro. Autores e cineastas projetam ou transportam para os ET ou robôs características próprias do humano, querem que o substituto ou sucedâneo tenha a sua alma. Talvez tenha caído nesta cilada o próprio Asimov?

sábado, 2 de junho de 2012

Vi Pedro - Vip

Amigos, grato pelos acessos, neste texto de hoje Vip, é o Pedro, uma pessoa comum. Não sei se era meu amigo ou se tratava-me bem, mas era uma pessoa especial. Por outro lado, nesta semana tive uma experiência com uma pessoa, colega de trabalho, que distribui gratuitos rancores e ódios por todos os lados como cavalo soltando pelas fuças suas dores e agressões desmedidas. Nestas horas de ouvir ofensas gratuitas a gente fica querendo ter alguma autoridade ou ser alguém em que estes espíritos estacionários ponham-se no seu lugar, mas sou um igual nesta zona morta; mas, com a graça de Deus, existem pessoas como Pedro e outros anjos.
Vi Pedro(Vip)
Descendo pela rua havia uma reforma com tapumes, pedreiros, um meia-colher que dava o acabamento no muro com sua desempenadeira. Era o Pedro, tinha de ser. Depois de décadas que o conheci em pouco mudara. Mas seria mesmo? Tinha de me certificar no meu banco de memórias.
No primeiro emprego, numa fábrica de biscoitos, lá o conheci. Olhou-me ingênuo, com sorriso de sempre e apresentou a mão espalmada, característica de seu cumprimentar. Então das mãos estendidas fechava com a da gente e dava uns bons balanços. Nunca entendi seu sorriso de japonês embora não fosse oriental, aquele sorriso que a gente não sabe por quê. Se me visse, estava sorrindo, sempre. Não se sabia o que pensava, nem por qual time torcia. Falava por sinais e sorrisos. Parecia feliz por estar ali.
Da leva que foi demitida nos anos noventa da crise de Collor eu fui uma baixa da fábrica. Ficaram alguns que comentavam de lá e de cá dos nossos amigos de trabalho e um a um foi saindo, os que achávamos bons funcionários, competentes e até dos chefes, não se sustentaram com a exigência da reengenharia.
Pedro passou a trabalhar em padarias, amassando pão com as mãos fortes e espalmadas, aberto à amizade do pobre. A felicidade de Pedro, várias vezes em subempregos me faz pensar da alegria dele. Quem era mais feliz, quem viaja de iate com o mulheril dos comerciais de TV, ou o Pedro, um arquiteto da alma humana. Um serviçal que acertava massas ao ponto de biscoito sem bissulfito de sódio e de pães sem Bromato - que punha muito engenheiro e químico no chinelo.   
A felicidade é muito relativa, quiçá aquela vizinha da janela. De boca gorda com seu batom vermelho gritante, esperando seu admirador da obra, que adora dona loira – talvez ela seja mais feliz que as modelos famélicas que voam pela passarela por um cachê, porque modelos são modelos, nada mais! E da vizinha loira o Pedro gostou por muito tempo, mas não sei o que deu depois, dos biscoitos e pães que levava escondido no paletó para ela.
Voltei no caminho então, sob o risco de perder o ponto no meu emprego e cumprimentei o homem. Abriu-me as mãos espalmadas, olhou para mim e sorriu da vida, do tempo, de nos revermos. Seu contentamento traduziu-se em risadas, sem muito falar, com a mesma naturalidade de sempre. Era feliz, era o Pedro, embora o crachá fosse de outro.
Eu vi Pedro, por certo ele viu Jesus.
Agredeço à Tribuna Piracicabana e ao amigo Erich pela publicação naquela jornal.