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O blog atém-se às questões humanas. Dispensa extremismos ou patrulhas. Que brilhe a sua luz. Bem-vindo e bem-vinda!

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O texto desta semana dedico ao meu irmão quase-gêmeo, temos vinte meses de diferença de idade e brincávamos juntos quando crianças. O tema que postou no seu blog http://blogs.jovempan.uol.com.br/quartarollo/ é sobre texto que o Luís Fernando Veríssimo teria escrito na net e, como muitos textos atribuídos a ele, este também não era, mas deu um bom gancho a esta crônica...


Luís, o Big Brother

Quem escreve os textos que o Luís Fernando Veríssimo escreve? Eis o paradoxo.
Diz o autor, em carne e osso, que os textos que circulam pela net, twiter, não são dele. Diz que tem outro “você” por aí nesse mundo virtual da net. Confessa-se sem essa máquina de pega-trouxa (friso meu, hem) de twiter.
A net é tão rápida que nem dá tempo de assinar os artigos, o jornaleiro corre mais que o jornalista. Os jornais envelhecem – tem-se de ler de manhã, à tarde a TV ou a net já o tornou obsoleto, leito para cocô de cachorro. Alguns atrasados como eu ainda o releem enquanto cuidam dos animais.
Caso é que o povo, o escritor jovem, o rebelde, o descontente com o status quo, quer se manifestar e ser ouvido como o Luís Fernando Veríssimo. O homem é um poço de inteligência e humanidade, simples que aparenta a simplório, com seu longo nariz vermelho e uma timidez robusta de um papai-noel sem barba. (mas não é o papai-noel também). Diz ele na sua coluna que não escreveu sobre o Big Brother, pois não assiste ao programa. Dá a entender que por puro desinteresse, ingênuo ou genuíno (adjetivos meus) – está desprogramado, não lhe puseram a grade de show em sua cabeça.
Outro caso é dos pseudônimos (nomes falsos). Na ditadura, o autor do Leite Derramado, não transbordava como Chico Buarque, mas Toninho da Adelaide, nos tempos duros de Vargas, Marques Rebelo escreve o trapicheiro, mas na verdade é Eddy Dias da Cruz. Para o escritor ou escrevente participar de concursos literários tem de se inscrever com pseudônimos, para não se ter privilégios na seleção – ganhar concursos literários, por vezes, é um sortilégio, nunca ganhei nenhum com os meus pseudônimos – vou colocar algum melhor, talvez Gaúcho da fronteira, analista de Bagé, epa, não vou escrever todos aqui, que daí não vai sobrar nenhum criativo para o próximo concurso. Já para o Nobel e outros títulos concedidos tem de se ter NOME e como para o Obama, concedido como “voto de confiança” (nunca vi título assim, mas deve ser coisa de Estocolmo, se não virar síndrome...).
Uma coisa é certa, cada vez que Luís Fernando nega que são seus os textos, eles ficam mais veríssimos, o pseudo autor mais famoso e o autor mais anônimo – talvez o Luís quisesse ser o anônimo, que escreve tão bem, segundo ele mesmo. Todavia, quando o vejo, de um perfil bem brasileiro, calado, humano, acho que Deus devia lhe ter dado um irmão gêmeo. Eu tenho um quase-gêmeo! E aproveito para dizer que também não tenho twiter, celular, fax, não sou o Luís Fernando, nem o Jabor, ninguém me conhece, sequer por quinze segundos. E por que estou escrevendo isso? Ora, nem eu sei, mas o jornal me deu uma pontinha. (Publicado no blog do quartarollo (jovem pan) e no jornal de Piracicaba.)
SINOPSE DE O SEMINÁRIO
A história se passa num seminário grande, de dois andares, um casarão antigo de frades. A morte de Olderick reabre a discussão sobre um fato antigo, o da morte de Adelmo em 1940, noviço e autor de um diário desaparecido. Adelmo é tido por suicida. Duas mortes semelhantes em épocas diferentes, os corpos são encontrados de manhã caídos no jardim sob a sacada. Coincidência? Talvez. Mas ainda outra morte da mesma sacada e os ataques aos seminaristas nas cercanias do Seminário põem em dúvida a tese da simples coincidência. Os moradores desconfiam de alguém furtivo pela casa antiga, de muitas janelas, portas e passagens secretas. Talvez o diário de Adelmo ou as anotações de Olderick possam elucidar o mistério, mas o jovem Teófilo vai descobrir coisas que nunca imaginou em sua vida e talvez nem você.
Camilo Irineu Quartarollo
Preço de capa: R$ 23,00 + postagem
Reservo-lhe um?

sábado, 29 de janeiro de 2011

Amigos, o texto de hoje é sobre a chuva de quem não foi alagado. A natureza fala-nos e quando vemos pela TV inundações, reconhecemos que tratamos mal a natureza, que devolve tudo. Por isso trate-mo-la bem. Leia a sinopse do meu livro no final deste texto e comente se quiserem.

O blogueiro



Chuvas de janeiro


Choveu a noite toda. Choveu mesmo. Como saída de uma rosca sem fim, que deixa os asfalto mais preto e brilhante e o andar prudente, fugindo às poças. Se sair vou me molhar, então melhor ouvir o tempo. Mas agora a cadência harmônica dela ressona no telheiro limpo e uma gotinha aqui ou acolá bate buliçosa em sustenido em meio ao coro de chuvinha, mas que molha o pedestre desprovido de seu guarda-chuva. Ressoa na calha, num eco, terna e constante num acorde próprio de Deus. Como se a chuva toda estivesse no vazio dessa gota, no eco úmido do meu corredor, preguiçosa e infindável. Volto a dormir.
Depois da constante chuva noturna, a água ainda escorre pelo quintal sulcado pela correnteza e borbulhando em buracos de formigas. Divina música! A melodia, sua cadência ou quais gotas dos dedos de Deus respinga - infinitas ou é a mesma? Sim, ela prevalece dentre muitos sons domésticos no café da manhã, ainda depois da chuva, tilintando no acaso em algum lugar.
Volta a chuva, matutina, abundante de um céu que parecia ter dado tudo de si, mas vem depois de uma peneirinha fina e os pingos em oitava acima já, como o segundo coral, depois para numa reflexão, parada momentânea e vem como a nona sinfonia de Beetoven e chove à vontade até parar novamente e... os respingos depois, alguém que chora por dentro. Sem som, somente a vibração de cordas surdas.
Esses pingos são verdadeiras criaturas, digo pingos, não pedaços de chuva. É um corpúsculo, um ente. Os vejo redondinhos e transparentes, límpidos, que crispam quando se quedam ou descem ao chão, às coisas disformes e líquidas como os sentimentos, às sensações de um observador efêmero como o homem ou de um alagado ribeirinho, à alma da natureza, e a água do meu copo é mera ressonância do meu muito obrigado. Quer um gole?

Publicado nA Tribuna Piracicabana em 29/01/11
SINOPSE
A história se passa num seminário grande, de dois andares, um casarão antigo de frades. A morte de Olderick reabre a discussão sobre um fato antigo, o da morte de Adelmo em 1940, noviço e autor de um diário desaparecido. Adelmo é tido por suicida. Duas mortes semelhantes em épocas diferentes, os corpos são encontrados de manhã caídos no jardim sob a sacada. Coincidência? Talvez. Mas ainda outra morte da mesma sacada e os ataques aos seminaristas nas cercanias do Seminário põem em dúvida a tese da simples coincidência. Os moradores desconfiam de alguém furtivo pela casa antiga, de muitas janelas, portas e passagens secretas. Talvez o diário de Adelmo ou as anotações de Olderick possam elucidar o mistério, mas o jovem Teófilo vai descobrir coisas que nunca imaginou em sua vida e talvez nem você.
Camilo Irineu Quartarollo
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Obs.: Você poderá adquirir comigo pelo e-mail camilo.i@ig.com.br e estará à venda na Libral e Nobel do centro de Piracicaba-SP. Contacte-me.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Amigos, já moraram em algum casarão? O texto hoje é sobre. Eles não tinham as trincas que os de hoje têm, porque o cimento armado é muito rígido, o saibro e as massas de antigamente eram mais plásticas, como o texto que quero apresentar-vos. Abraço a todos e leiam a sinopse de O Seminário no final. Grato.


Casarões
Na cidade têm muitos por aí, esparsos, em meio aos arranha-céus, abandonados. Quando nem se percebe se os vê em esqueleto a céu aberto, em demolição suspensa, pendente de algum inventário. De quem é? Hoje de manhã estacionei meu carro em frente a um deles, em pleno centro da cidade. O baita estava para ser derribado. Fiquei olhando as portonas de tranca de madeira, os janelões com molduras dos pedreiros de antigamente, que assentavam aqueles tijolões enormes, que nenhum olaria fabrica mais. Salta aos olhos aquela planta baixa em tamanho natural, na qual pude pisar. Na marca do primeiro degrau da escada, pus o pé e tirei, o patamar já não existia, era devaneio subir uma escada invisível, mas subi ao andar superior, a uma sacada de observador feliz. Na sacada suspensa, na vertigem dos meus olhos via lá embaixo, pequenos, carros antigos e transeuntes de cartola e bengala, vivos.
Nas paredes internas todas derribadas e somente os alicerces demarcam os antigos cômodos. Uma família vivia ali. Quase ouvi um choro de criança no quarto do filho menor, pegado ao quarto do casal. A marca do fogão à lenha e a fumaça que ficara na parede ainda em pé, com um risco de carvão. O chão, sim, a parte do piso que não tiraram, era um ladrilho antigo de motivos vermelhos e verdes, bonito e de muita história. Voltei para sair e pisei naquele chão inda úmido do sereno da casa e acima um céu risonho com pássaros em suas circunvoluções. O telhado da casa?! Meu Deus! Tiraram-lhe o tampo! Era um quadrilátero vazio.
Nada mais do que já fora um lar. Imaginava um telhado invisível, alto e as pessoas que ali viviam. Quando se habita uma casa, um ambiente familiar, não se percebe a fragilidade da vida e é como se as paredes pudessem reter sentimentos, esconder olhares e às quatro paredes é onde se quer ver.
Quem pode conhecer o espírito humano, os alicerces da cultura? Índios têm ocas, árabes têm tendas, esquimós têm iglus, mas “o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”. A casa ainda respira, mas já vêm os demolidores e a caçamba, lá embaixo um carro atrapalhando, vão guinchar... “o meu carro”!
Pois é, fui buscar no pátio meu poisé com um troco emprestado, ao passar pelo, pela... o casarão já não era. Só me resta registrar em textos as vidas que ele abrigou. Com certeza o cimento armado virá sepultar essa memória urbana.
(Publicado na A Tribuna Piracicabana de 22/01/11)
SINOPSE de O SEMINÁRIO
A história se passa num seminário grande, de dois andares, um casarão antigo de frades. A morte de Olderick reabre a discussão sobre um fato antigo, o da morte de Adelmo em 1940, noviço e autor de um diário desaparecido. Adelmo é tido por suicida. Duas mortes semelhantes em épocas diferentes, os corpos são encontrados de manhã caídos no jardim sob a sacada. Coincidência? Talvez. Mas ainda outra morte da mesma sacada e os ataques aos seminaristas nas cercanias do Seminário põem em dúvida a tese da simples coincidência. Os moradores desconfiam de alguém furtivo pela casa antiga, de muitas janelas, portas e passagens secretas. Talvez o diário de Adelmo ou as anotações de Olderick possam elucidar o mistério, mas o jovem Teófilo vai descobrir coisas que nunca imaginou em sua vida e talvez nem você.
Camilo Irineu Quartarollo
Obs.: Você poderá adquirir comigo pelo e-mail camilo.i@ig.com.br, autografo e entrego pessoalmente ou por correio, e o mesmo estará à venda na Libral e Nobel do centro de Piracicaba-SP, pelo módico valor de R$23,00. Contacte-me.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Vejam após o texto do blog, a sinopse do livro O Seminário.

A Outra ou Os doces de casamento

Quando chegou a casa a esposa chorava, deitada na cama com as mãos cobrindo o rosto. Na cozinha toda bagunçada panelas, pratarias todas espalhadas e no chão uma barata não pisada, agonizante, esperneava. A situação era preocupante nos primeiros dias de casamento. “Que foi, meu bem?” foi a primeira tentativa de estabelecer contato, mas os soluços convulsivos da mulher não davam tréguas, até que:
- Você pensa que sou escrava, aqui. Enquanto ela está ai o tempo todo, eu sei. Não adianta tentar esconder não.
Casado recentemente, marido de primeira hora e jovem, deixara algumas pendências afetivas e casos amorosos terminados unilateralmente por ele, mas as sequelas de uma vida avessa aos padrões monogâmicos davam azo a pensar e devanear. Ela estava ressentida de alguma fofoca, pensou. Começou a enumerar mentalmente os amigos invejosos e os prejudicados de suas relações de alcova, não achou ninguém tão mal a ponto de pôr a esposa a nocaute por depressão.
Eliminados os problemas externos, reuniu energia para resolver os de casa. Escrava – dizia a esposa. Por quê? Ela quem? E veio a pergunta certa, aquela “de quem você está falando, meu bem?” A pergunta certa, mas em hora certa? Não, ela voltou à choradeira. Mas antes se levantou e lançou algumas acusações aleatórias. A Outra rondava pela vida conjugal deles. Estavam bem, tentando viver a dois, mas não cabia um terceiro escuso. Ele contou nos dedos as quais deixara pela esposa e faltavam dedos, mas cheio de dedos foi consolar a mulher, carinhoso. Estava escrito nos seus olhos que, antes não o olhassem com aquele olhar de medusa, petrificado. Vira um fantasma. A coisa era mais séria da que pensou.
Seu sangue fervia. Se a Outra, fosse quem fosse, estragasse seu casamento a mataria de forma desumana, com crueza. Sentia-se invadido em seu lar, profanado o seu sagrado matrimônio e ferido os sentimentos puros da esposa, uma conquista de um marido arrependido de sua vida dissoluta, que agora cobrava por cumplicidade. Afinal, fizera diante do altar o contrato com Deus e com o cartório e agora alguém se interpunha na sua vida consagrada de homem de família.
A Outra tinha de ter o nome dela, era a vingança maligna. A esposa não conseguia proferir nem o nome, mas o levou escorada pelo corredor até a cozinha, ela estava lá. Ora, a Outra era uma barata que a assustou e o marido começou a rir e levantou o pé como herói para matar a invasora, mas não, um grito da mulher:
- Não a mate, é um ser vivo!
Então?.. Taca o spray, taca o spray, repetia a entomofóbica e a barata esperneava, olhando os algozes discutindo a forma de sua sentença, rodando o dorso pela cozinha até que conseguiu se desvirar e fugir; todavia, enquanto os doces de casamento estiverem por ali, a Outra ronda o lar.
O SEMINÁRIO - Sinopse - A história se passa num Seminário grande de dois andares, um casarão antigo de frades. A morte de Olderick reabre a discussão sobre um fato antigo, o da morte de Adelmo em 1940, noviço e autor de um diário desaparecido. Adelmo é tido como suicida. Duas mortes semelhantes em épocas diferentes, os dois caem da sacada e são encontrados de manhã, caídos no jardim. Coincidência? Talvez. Mas ainda outra morte da mesma sacada e os ataques aos seminaristas nas cercanias do Seminário põem em dúvida a tese da simples coincidência. Os moradores desconfiam de alguém furtivo pela casa antiga de muitas janelas, portas e passagens secretas. Talvez o diário de Adelmo ou as anotações de Olderick possam elucidar o mistério, mas o jovem Teófilo vai descobrir coisas que nunca imaginou em sua vida e talvez nem você.
Camilo Irineu Quartarollo

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011


Amigos, grato pelo apoio e acessos em 2010. Espero que este blog de crônicas continue correspondendo às espectativas. Mas vejam o texto abaixo sobre como surgem expressões populares, que depois ninguém sabe quem falou primeiro. Um abraço. O blogueiro

Dia enluarado

Que lua? – Essa é uma expressão popular nova que se incorpora à Língua. Numa fila de supermercado, o “mano” suado olhou para mim e desabafou: que lua, heim meu!? Não tive alternativa linguística a não ser responder: Que luão, né!?
Os literatos que o corrijam à portuguesa, mas o povo entende e nem a ditadura consegue mudar o espírito da língua e os apetites por vocábulos novos, nascem por aí como filho sem pai de uma geração espontânea ou a criatura é relegada a um escritor aventureiro.
Ora, Sol e Lua são análogos, sucedâneos, mas a Lua é maior que o Sol, maior não, “mais grande” porque está mais perto (embora dizer “mais grande” fira os ouvidos sensíveis, os dois astros são grandes, um é ou parece maior que outro. A Lua tem um calor próprio e em noite enluarada o dia é mais quente ainda, dia enluarado! A Lua vence o aguerrido e inflamado sol em noite de Lua, ela reina durante o dia e noite.
O professor da esquina discutia com o homem que perambulava pela rua pedindo, provocando, arruaçando. O modesto mestre, cujos óculos não lhe caem das pupilas flamejantes, advertia-o a seguir o bom português; mas do bar vinham bêbados e mais algumas expressões espirituosas. No que lá também junto ao vinho e à caninha reviviam literatos e artistas de figuração, mesmo a desdém de um copo protagonista.
Embora não fosse desfrutar do vício parava os que iam para um dedo de prosa – mas nem um uisquinho, tio? Era só conversa mesmo. Como a casa do professor era o início de um aclive, o bebum ficava, os corajosos que tentavam subir desajeitados, voltavam para o parapeito da janela e conversavam ou dormiam agarrados ao poste. O caso era que num desses dias, o transeunte, trançando as pernas, queixava-se do nhenhéu. Seria um pernilongo, um Aede Egipte, um mosquito comum, ou o quê? O literato e filólogo quis saber, mas só ouvia o zumbido e os golpes de trôpego tentando acertá-lo de punhos cerrados. Que nada. O coitado estava suado e não pegava a criatura voadora invisível e como não visto, era como um verme ou bactéria, nome de coisa que não se vê. Mas o professor insistiu:
- O que esse nhenhéu, meu filho; eu não sei?
- Num sabe, um próóofessôr, nenheu.

Neste 2011 lançarei O Seminário. Um livro de muita dedicação para escrever, reescrever, garatujar, regaratujar, corrigir, recorrigir, ajustar, reajustar, pensar na capa, na contracapa e chegar até o leitor da melhor forma e o mais caprichado possível. Aí está ao lado, num livro aberto O Seminário. Vou informando melhor nas próximas postagens. Para maiores contatos acesse meu e-mail camilo.i@ig.com.br

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O meu próximo lançamento em 2011 será O Seminário. Este livro traz uma trama dentro de um seminário pós-conciliar, que começa com a morte de um seminarista e tem ligação com um noviço em 1940 e seu diário desaparecido e que, conforme boatos, continha detalhes desabonadores aos moradores de então. Os interessados podem entrar em contato pelo e-mail camilo.i@ig.com.br, reservar o seu e ter uma tremenda viagem dentro do Seminário, entre tramas e passagens secretas. Nas próximas postagens iremos elucidando mais detalhes sobre a edição que já monta a 14 correções gramaticais e ortográficas deste penoso escrevente.
Camilo Irineu Quartarollo - autor piracicabano











Burrinho de leite

Perdia-se a olhar pela janela a ruinha, justa, de britas, em paralelepípedos, escorregadia nas chuvas e difícil de pronunciar. Os burrinhos de leite subiam no bater de cascos despertando o Sol, encurvando o tempo numa sombra de ilusão e vestígio das casas antigas, nas curvas que escondia a entrega da garrafa. O leite chegara ao acordar da família e só um velho do outro lado da vila vê o leiteiro. O velho ficou à janela até à tarde, mas o burrinho não fez o mesmo caminho. Não voltou por essa ruela, fez um caminho de Magos, por outra via.
Noutro dia o burrinho vem. Olha da janela o fundo da ruinha sob o luar azul, fímbrias rebrilham o tosco calçamento de pedra, das ruas pobres, do leite que vem, das chaminés em atividade, assim vai acordando deslumbrante o Universo.
O leite branco e gorduroso em litro de vidro, o recado de um bilhete, da úbere casta, de um mugido surdo, vem a mãe apanhar a conta do mês, com depósito futuro na janela do leite madrugador, espumante de um leiteira torta, nas rebarbas brancas de tombos antigos da vasilha de nobre alumínio.
O velho não sabia, mas abaixo da viela corta um riacho imaginário que o burrinho de leite não pode abaixar a beber, e Deus colocou uma nascente que jorra à altura do seu bocal; ainda assim o leiteiro não para. O animal de cima só pode ver o curso sinuoso desse riacho e engolir a secura dos olhos indômitos, e per si sorver momentos como poesia, como o poeta, mas meu Deus, quê sede!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010


Meus amigos, feliz natal a todos. Hoje posto um texto sobre um natal diferente, o de uma idosa. Nesta semana perdi uma tia de 83 anos, muito franca e simples com suas flores de quintal, tia Elydia Todeschini Pozzato. Velamos o seu corpo com a última expressão serena em vida. Adeus e feliz natal. Queria postar o texto abaixo nesta semana e acho que pressentia o seu passamento, o natal se faz a cada dia, são presentes que nós preparamos uns para os outros, o céu é assim.
O blogueiro

Meu filho!

Alô, hum, o quê? O rapaz desligou. Erro de dedinho, o último dígito. Dera para cometer erros, lapsos do estresse. Deixou-se cair no sofá como o corpo engordado por uma bruxa para o próximo enfarto, preso do tédio. Tinha de caminhar, deixar aqueles torresminhos do mercado e pegar duro no trabalho, andava com depressão – o médico lhe dissera sem cobrar nada, era amigo do trabalho. Mentalmente já cansava pelo percurso não feito e de pôr o tênis, o short e a camiseta com um boné e óculos pretos – uma toalha nos ombros para enxugar o suor não faria mal. Ali pensando enxugava-se com o lenço mesmo.
Sim, aquele corpo era a causa de muitos males. A última namorada já o deixara por um corpo mais jovem e belo. A gordura já lhe atingia o peitoral, fazendo um rosto disforme ligando-se às papas. O cabelo, um bem de juventude, já caía no banho de dever matinal. O café lhe alegrava, lembrava a mãe – dizia o terapeuta. A mãe? Quê mãe? Já morrera na infância. A tia velha lhe criou aos supetões, sob lições de reguadas na cabeça. Sabia a medida do seu cérebro por isso. Falta de autoestima bloqueia a mente.
Quando se esquecia no quintal de terra a velha vinha e o empurrava para dentro do banheiro, como um boi ao matadouro. Ficava ali tremendo nu, vendo as louças brancas e frias e do alto viriam os chuviscos aos quais tinha de se submeter. Já grandinho e a água não o lavava por si, descobrira quando a tia começou a invadir e lhe ensaboar entre as orelhas e partes íntimas, deixando esfregões no pescoço. Saía limpo com todo o ser esfregado e murcho. Os pijamas para o sono. Dormir? Era uma obrigação. Resolveu que não, não dormiria. Ficava por muitas horas, contadas no criado-mudo, acordado com um livro na cabeceira sem o ler e sem o sonhar, depois revolvia a toalha para o chão e saía até uma cadeira velha, no quintal. A tia não o atingiria ali e não cumpriria o dever do sono diário. A velha percebeu o ardil ingênuo do menino e impingiu tantas neuroses a sua cabeça que o fazia cair no sono durante o dia, sem dormir. Negava para si mesmo a queda nos braços de Morfeu.
Era um sofá macio o da sala de espera, sem molas e engolia gente de todo o tamanho. O que fazer? A não ser segurar naquele aparelho de teclas mágicas. Ligou de novo. O lapso ocorreu exatamente como da outra vez e a ligação caiu no mesmo número errado.
- Pois, não. Não sou eu, não. Foi engano! – repetiu até que parou de falar, e do outro celular uma senhora falava com o filho imaginário.
- Meu filho! Você não vem mais aqui, nem no natal. Eu fiquei doente, sabia? Estou com saudade. Lembra-se de quando eu lhe cuidava, meu fofinho! Não precisa trazer maçãs, só quero a sua presença.
– Não minha, senhora, eu não tenho mãe! A velha replicou que não tinha mesmo, se não viesse antes que morresse.
Resolveu ir para que ela visse que não era o seu filho e ia dar um susto nela, pensou e foi logo dizendo na portaria que viera visitar a mãe. O porteiro assustou-se: filho? Mas a mulher, na porta, reconheceu-o com o pacote de maçãs. A estranha encheu-lhe de beijos, antes mesmo de se explicar o engano – estava descartada a prova material, por assim dizer. Como dizer que não era seu filho?! Deixou as maçãs no quarto da senhora, tomou um café amargo no refeitório e voltou outras vezes ver a idosa que lhe lembrava de alguém do passado. No prontuário dela nenhum filho lhe constava, porém, na vida dele, mãe também não.
Publicado no A Tribuna Piracicabana em 24-12-10